A Revelação Divina

O que é?

REVELAR é remover um véu, isto é, fazer conhecer algo obscuro, oculto ou desconhecido. O homem pode revelar o que sabe. Deus pode revelar tudo o que quiser deixar conhecido.

A REVELAÇÃO DIVINA é a manifestação de Deus feita para nós de uma verdade que ilumine as nossas mentes de uma forma sobrenatural (S. Th. 2,2 q. 173 a. 3).

Com esta iluminação da mente, Deus nos comunica a verdade. Ele nos fala não apenas colocando conceitos na mente humana ou atingindo exteriormente nossos sentidos, mas também julgando com a luz divina conceitos que são apreendidos naturalmente.

Esta revelação é algo sobrenatural, enquanto supera a essência, as exigências e as forças da natureza humana e não lhe é devida.

Supera:

A) A essência. Posto que Deus quis dar-lhe a existência, o homem na sua essência, isto é, naquilo que é, tem direito aos bens inerentes à sua natureza humana (alma e corpo), mas não tem direito de ter em si uma vida divina, como a revelação lhe promete.

B) As exigências. O fim do homem é chegar a Deus, mas, segundo a simples natureza humana, poderia chegar, na medida do possível, com a inteligência e a vontade. Entretanto, a revelação lhe promete a visão de Deus face a face.

C) As forças. A simples razão humana pode conhecer as coisas divinas de uma forma muito limitada. Entretanto, com a revelação qualquer um conhece coisas que antes lhe eram desconhecidas e que então compreende, e outras coisas – os mistérios – dos quais não compreende a profundidade e a íntima substância, mas que, pela palavra de Deus, conhece pelo menos de algum modo.

Assim também nos meios para atingir seu fim sobrenatural, a natureza humana não tem forças suficientes, mas as encontra no que lhe dá a revelação.

A revelação se diz PÚBLICA quando é dirigida ao bem de todos homens, como aquela feita por meio dos patriarcas, dos profetas, e, finalmente, por meio de Jesus Cristo. Diz-se PARTICULAR quando é dirigida ao indivíduo, ainda que para o bem de muitos, como as revelações feitas a alguns santos.

Diz-se IMEDIATA quando Deus se revela diretamente por si ou por um anjo sem a assistência de um homem; diz-se MEDIATA quando nos manifesta a verdade por meio de um homem, como se fez através dos profetas (de modo mais exato, também seria mediada quando Deus usa o ministério de um anjo, mas aqui nós preferimos esta divisão da revelação feita diretamente do alto a partir daquela entregue por um homem, a quem Deus falou ou um ser enviado por Deus).

Erros contra a Revelação

Cada tese que tentaremos demonstrar tem uma conexão lógica com as outras. A verdade religiosa se apresenta como um edifício harmonioso em todas suas partes e uma não pode estar sem a outra.

Cada tese, no entanto, é diretamente contra os erros e por isso é necessário conhecê-los para que nos apareça seu sofisma e inconsistência frente à beleza e à verdade do ensinamento católico. Por isso, exporemos brevemente cada um tratado. Assim, a força da argumentação contra eles se destacará melhor.

OS PRINCIPAIS ERROS CONTRA A REVELAÇÃO se encontram em doutrinas que têm exagerado em dois sentidos opostos, enquanto que, às vezes, uma resulta da outra: a) ou com um pseudossobrenaturalismo negando toda capacidade e toda possibilidade da razão humana; b) ou com naturalismo absoluto admitindo apenas o que pode ser conhecido pela razão em si.

A) PSEUDOSSOBRENATURALISMO

I – O TRADICIONALISMO nega a capacidade da razão humana de conhecer a verdade religiosa e estabelece como único critério de verdade e de certeza a tradição oral do gênero humano.

Argumenta-se da seguinte forma:

No princípio era “a Palavra” (Jo 1:1), isto é, a Revelação. Sem esta “Palavra”, não seria possível nenhum conhecimento acerca de Deus. Por isso, Deus a comunicou a Adão e foi transmitida até nós. Lamennais, um dos principais autores desta teoria (+ 1854), que se manteve, diferentemente de outros como De Bonal (+ 1840), Bautain (+ 1867), Bonnety (+ 1789), Ventura (+ 1861), que se submeteram e retrataram o erro depois da condenação da Igreja, considera a razão individual incapaz de chegar ao conhecimento natural de Deus. Entretanto, vê no consenso geral de todos povos uma confirmação da revelação à ideia de Deus. Este tradicionalismo rígido foi condenado pela Igreja (D.B. 1617).

O TRADICIONALISMO MITIGADO (Beelen, Schanz, Laforet, etc.), entretanto, não foi condenado. Ele não nega a capacidade da razão de conhecer a Deus, mas sustenta que ela precisa estar preparada para isso por meio da instrução. Na prática, todos povos, descendendo de uma única origem, à qual Deus fez a revelação, mesmo se enganando nas suas religiões, trouxeram estes conceitos da revelação primitiva.

Enquanto se mantêm dentro desses limites, desde que não afirmem que a revelação seja absolutamente necessária para alcançar o conhecimento natural de Deus (caso que seria contra o Concílio Vaticano I), não se opõem ao ensinamento católico. Ademais, é fácil distinguir se de fato traços da Revelação alcançaram todas as nações. Se por acaso não tivesse chegado a ninguém nada desta revelação, seria possível chegar ao conhecimento natural de Deus apenas com a razão.

II – O FIDEÍSMO exagera o papel da fé no conhecimento da verdade, negando que o objeto da Apologética seja a credibilidade, uma vez que seria impossível a demonstração: “é preciso acreditar sem provas”, se diz.

Este erro de protestantes antigos foi reproposto e recolocado novamente em nossos dias com o existencialismo de Severino Kierkegaard e com a teologia dialética de Carlos Barth. Com grande desconfiança nas forças da inteligência humana, desconfia-se das provas racionais do Cristianismo, ou, pelo menos, tenta-se reduzi-las ao mínimo. Alguns católicos também sentiram o influxo dessas teorias. Daí a referência da encíclica “Humani Generis” (1950), que reafirma a possibilidade de “provar com certeza a origem divina da religião cristã com a única luz da razão” e que acusa de erros aqueles que “não aceitam o caráter racional dos sinais de credibilidade da fé cristã.”

III – O LUTERANISMO também segue o fideísmo com um pseudossobrenaturalismo individual. Na verdade, ele admite a Bíblia como única fonte para conhecer as verdades da religião, interpretada individualmente com iluminação divina.

No lado oposto estão os erros do:

B) NATURALISMO ABSOLUTO

Podemos classificar os principais em:

1º RACIONALISMO. É um sistema que afirma o supremo e absoluto domínio da razão humana em todas áreas, submetendo ao seu controle todo fato e toda autoridade, incluindo o mundo sobrenatural e a própria autoridade de Deus. Este sistema tende a humanizar o divino quando não o elimina, ou a naturalizar o sobrenatural quando não o nega. Já nos primeiros séculos da Igreja, eunomianos, nestorianos e pelagianos seguiram este caminho, mas esse racionalismo estreito e exclusivo se desenvolveu no Humanismo com a valorização do homem e de sua razão acima de toda autoridade; concretizou-se no naturalismo de Bernardino Telesio, de Giordano Bruno, de Tommaso Campanella, e passou à construção subjetiva de Descartes até a Enciclopédia do século XVIII. O racionalismo nega, então, a Revelação e admite apenas o que a razão alcança.

2º AGNOSTICISMO. Nega a possibilidade ou a capacidade de conhecer alguma verdade: ignoramus, ignorabimus (não sabemos, não saberemos) é o seu lema. A palavra “agnosticismo” foi usada pela primeira vez pelo inglês Huxley.

O Agnosticismo se afirmou em correntes filosóficas:

a) Agnosticismo positivista (Conte, Littré, Spencer), que restringe o âmbito do conhecimento humano ao fenômeno e ao fato experimental. Fecha-se aos fatos e experiências, sem ir à origem das coisas, a Deus e à revelação, os quais julga incognoscíveis.

b) Agnosticismo kantiano, segundo o qual a única realidade objetiva para nós é o fenômeno (aquilo que aparece) que impressiona os nossos sentidos; a coisa em si (o númeno, aquilo que a coisa é) nos escapa e a razão a substitui com as suas formas, como Kant as chama: categorias a priori, que são subjetivas, isto é, antecedentes, independentes da experiência e inatas. Muito menos podemos com razão atingir a Deus, que transcende toda a natureza.

Kant diz: tenho a ideia de Deus, mas não posso demonstrar a realidade fora de mim (a crítica da razão pura). Mas, como um bom protestante, queria admitir a Deus, e então ilogicamente concluía que se pode e se deve admitir Deus por meio da vontade, como um postulado. (Crítica da razão prática) (Cf. PARENTE PIOLANTI – GAROFALO: Dizionario di Teologia per i laici – Ed. Studium, Roma 1949).

Na mesma linha de Kant se encontram Hegel, Fichte, e mais perto dos italianos Croce e Gentile, que em seu idealismo reduzem toda a verdade a um subjetivismo imanente a nós, excluindo a realidade objetiva das coisas. Portanto, para eles, Deus existe à medida que nós o pensamos, e não realmente em si mesmo.

3° MODERNISMO. Síntese de todas heresias, como chamou Pio X (cf. Encíclica “Pascendi” e decreto “Lamentabili”, 1907). Partindo dos pressupostos filosóficos do positivismo kantiano, afirma que a revelação é a compreensão por parte do homem de sua relação com Deus. O Cristianismo não é mais um complexo de dogmas imutáveis, ​​de valor objetivo absoluto, que nos vêm de uma revelação objetiva externa e ao qual damos assentimento individual. Isso não é senão o sentimento do divino que surge do nosso subconsciente. Assim, o dogma é apenas a expressão provisória da nossa subconsciência e está sujeito a uma contínua evolução.

O crítico, como tal, pode negar aquilo que admite como crente.

O Modernismo teve como principais autores na França Leroy e Loisy; Tyrrell na Inglaterra; na Alemanha, Scheli; na Itália, os autores do “Programa dos modernistas” e Bonaiuti.

4° ONTOLOGISMO. Diz que podemos alcançar essas verdades com a nossa intuição.

Contra esses erros, eis as teses que se seguem:

Possibilidade da Revelação

TESE – É possível, e aliás conveniente, a Revelação Divina não apenas das verdades naturais, mas também das verdades sobrenaturais, até mesmo dos próprios mistérios.

FILOSOFICAMENTE É CORRETO
TEOLOGICAMENTE É DE FÉ

(Veremos em seguida o que significa de fé; a partir daqui, enquanto estudando à luz da razão humana, examinaremos qual é o pensamento católico frente a essas verdades.)

PROVA I

A) É POSSÍVEL POR PARTE DE DEUS, já que Deus pode revelar,

a) fisicamente. Sendo infinitamente sábio e onipotente, pode manifestar ao homem coisas que estes não sabem, tanto com imagens internas como atingindo externamente nossos sentidos. Pode fazê-lo imediatamente por si, bem como servindo-se de um homem.

b) moralmente. A revelação não anula sua majestade. Ao contrário, é conveniente, pois ilumina o homem para atingir seu fim, que é Deus; por fim a revelação é direta à glória de Deus.

B) POR PARTE DO HOMEM. Este, para praticar a religião, como é seu dever, poderá fazê-lo melhor enquanto conhece mais o que Deus ensina e quer. Com a revelação, conhece com maior perfeição e exatidão aquilo que Deus quer dele.

Também não se diga que submetendo-se a Deus, o homem diminui a dignidade e a autonomia de sua razão, que aliás é enobrecida, porque recebe o ensinamento daquele que é a Suma Sabedoria. A sua palavra veraz dá a garantia máxima da verdade. Assim, com a liberdade de fazer uma escolha, é preciso saber o que escolher. Perante dois baús fechados, não sei qual contém um tesouro, ou coisas inúteis. Quanto mais sei, melhor poderei escolher, sendo ainda livre para pegar o baú sem valor, se quisesse. Mas eu seria um tolo se recusasse o tesouro.

Assim, a razão, se iluminada por aquele que é a luz que ilumina todo homem, escolherá livremente com maior sabedoria e, portanto, com maior dignidade.

II – ALGUMAS VERDADES NATURAIS. O homem, na limitação de sua inteligência, tem um campo muito estreito também no conhecimento das verdades de ordem natural. Muitas vezes também comete muitos erros na busca de tais verdades! Por isso, não é nem um pouco incompatível que Deus as manifeste a ele para a realização mais fácil de seu fim. Através do conhecimento seguro delas, o homem chega a conhecer melhor a Deus também naquelas coisas que alcançaria com apenas as forças da inteligência humana.

III – TAMBÉM ALGUMAS VERDADES SOBRENATURAIS, OU MELHOR, ALGUNS MISTÉRIOS.
Mistério é algo arcano, secreto. Existem também muitos mistérios na natureza. Por exemplo, sabemos que movendo um dínamo se produz eletricidade. Sabemos quais são os efeitos da luz, do calor, do movimento. Mas nós sabemos o que é a eletricidade? É um mistério da natureza, e há incontáveis. Muito mais na revelação. “Em sentido amplo se chama mistério uma verdade conhecida apenas pela Revelação, e compreensível, depois dela, por parte da razão. Por exemplo: a criação do universo no tempo.” (M.J. Scheeben: I Misteri del Cristianesimo, Trad. Gorlani, Morcelliana 1949, p. 9).

Em sentido estrito, o mistério é uma verdade, cuja existência, sem fé na palavra de Deus, a criatura não pode ter certeza, ou melhor, não pode representar e compreender o conteúdo diretamente, mas apenas indiretamente, comparando-o com coisas de outra natureza (PARENTE – PIOLANTI – GAROFALO op. cit.).

Geralmente, outros autores definem, com expressão mais fácil, o mistério como uma verdade que é sabida existir, mas não se sabe como existe. Mas preferimos a definição mais difícil em sua linguagem técnica por ser mais exata e completa. De fato, a obscuridade do mistério não consiste apenas em não saber como seja, mas, antes que nos seja revelado, não sabemos nem que existe.

A Igreja estabeleceu o significado da palavra mistério no Concílio Vaticano I (Sess. III. 4): “Os mistérios divinos por sua própria natureza transcendem de tal modo o intelecto criado que, embora revelados e cridos, ficam contudo velados e obscuros durante a vida mortal.”

Por isso, na definição se diz que a criatura não pode representar e compreender o conteúdo diretamente, mas apenas de forma indireta, comparando-a a algo de outra natureza. Isso se diz conhecer por analogia.

Quando anos atrás um viajante trouxe do Oriente a planta de lótus com os seus frutos que o povo comumente chama de “caqui”, se ele tivesse falado antes que os ocidentais a tinham visto podia lhes dizer: “o tronco daquela árvore é feito de tal modo e se assemelha a tal planta; as folhas são semelhantes àquelas das tais plantas, o fruto na cor e forma é quase como uma laranja, mas a casca é muito mais suave e o interior mais polposo, etc.” O que teriam entendido? Se faria uma ideia aproximada, comparando-o à planta de outro gênero, mas não teriam tido a ideia precisa. Então um dia falando sobre cores com um cego nato, essa pessoa me disse que pensava o vermelho como um som forte de trombeta. Ele, sempre cego de nascença, não podia ter a ideia exata da cor: somente com as notícias que ele pôde apreender, comparando com coisas de outra natureza, os sons, que ele conhecia, formava uma ideia de que no vermelho, diferentemente de outras cores, havia algo forte que atingia com maior intensidade no olho de quem podia ver, como o som de uma trombeta atinge com maior intensidade o ouvido, mais do que o som de um violino ou de uma flauta.

Se na ordem da natureza das coisas criadas, tanta coisa permanece velada para quem não percebe diretamente, mas apenas através de uma comparação, pensamos em quão profundos e obscuros serão os mistérios que se referem a Deus! Por isso, embora revelados, a razão humana não poderá penetrar inteiramente em sua essência, nem demonstrá-los intrinsecamente. Porém, mesmo conhecida alguma coisa de sua essência, de acordo com a fraqueza da inteligência humana, será uma nova riqueza incomparável à nossa mente, tanto no campo da verdade quanto nas consequências práticas que derivam desta luz de vida.

Os mistérios não podem ser demonstrados pela razão, mas pode-se demonstrar que não a contrariam. O mistério está acima, não contra a razão. Deus, Verdade substancial, é o autor da fé e da razão, e não pode haver contradição entre fé e razão.

Dizer que na religião há mistérios que superam a inteligência humana não é colocar um obstáculo à grandeza de nossa Fé. É, ao contrário, confirmar que nossa religião é divina. É mais que lógico existirem mistérios. Se não existissem, igualaríamos a nossa mente com a de Deus, que é um absurdo. A mente de Deus é infinita e a nossa pequena inteligência não pode cobrir sua infinita sabedoria. Por fim no Paraíso, enquanto muitos mistérios nos serão completamente revelados, outros – aqueles que envolvem a vida íntima de Deus, como, por exemplo, o mistério da Santíssima Trindade – serão conhecidos mais ou menos por cada um de acordo com o grau de glória, de forma a satisfazer plenamente a inteligência dos beatos, mas os poderá compreender de modo completo.

Em um copo não pode entrar toda a água do mar. Muito menos na nossa pequena inteligência se pode compreender a infinita sabedoria de Deus.

A REVELAÇÃO DAS VERDADES SOBRENATURAIS E DOS PRÓPRIOS MISTÉRIOS é possível, aliás, muito conveniente:

a) por parte de Deus, que pode, como por outras verdades, nos manifestar essas, inacessíveis à razão humana, sendo infinitamente Sábio e Onipotente.

b) por parte do homem que vem a conhecer com certeza a verdade a qual a sua inteligência não podia atingir. Chega a conhecer pelo menos a existência dos mistérios e por meio destas verdades pode encaminhar sua vida com mais segurança em direção ao último fim, do modo querido por Deus.

Necessidade da Revelação

Devemos mostrar esta necessidade:

Iº com respeito às verdades divinas e acessíveis à razão humana,

IIº com respeito aos mistérios.

I TESE – No estado atual do gênero humano, as verdades divinas, também aquelas por si acessíveis à razão, para serem conhecidas por todos, com firme certeza e sem erros, requerem moralmente uma revelação (Conc. Vat. I D.B. 1786).

EXPLICAÇÃO: Explicamos os termos:

NO ESTADO PRESENTE DO GÊNERO HUMANO: trata-se da condição sob a qual se encontra o gênero humano após o pecado, com as suas paixões, a sua fraqueza. Trata-se da humanidade no seu complexo, não de um só indivíduo singularmente.

AS VERDADES DIVINAS: é possível que um homem com seu estudo possa vir a conhecer alguma verdade divina. Aliás, nas páginas anteriores já mostramos que as verdades fundamentais podem ser alcançadas passando-se do conhecimento das coisas visíveis ao das coisas invisíveis, conhecendo-se quem é o Autor. Mas aqui falamos do conjunto de todas verdades que por si seriam acessíveis à razão humana.

TAMBÉM AQUELAS POR SI ACESSÍVEIS À RAZÃO: não se trata de verdades que se podem conhecer somente se manifestadas por Deus, mas daquelas que a razão humana poderia alcançar com suas próprias forças.

PARA SEREM CONHECIDAS POR TODOS: Mesmo que um só indivíduo pudesse colocar-se ao estudo de todas verdades religiosas acessíveis à razão, a maioria dos homens não teria meios, quer pela falta de tempo, quer pela inteligência e preparação cultural, quer pelas ocupações e necessidades da vida. No entanto, todos homens têm necessidade absoluta de conhecer as verdades divinas com firme certeza. Mesmo depois de longo estudo feito pelas mentes mais ilustres, nem todas verdades poderiam aparecer à mente com a segurança que é necessária para as verdades que interessam a toda a nossa existência. Temos a prova nos estudos dos maiores filósofos pagãos. Por exemplo, Platão, em seu Fédon, relata a demonstração feita por Sócrates sobre a imortalidade da alma; ademais, o grande filósofo tem algumas incertezas sobre este assunto de importância vital.

E SEM ERROS: os próprios filósofos pagãos em busca das verdades de ordem natural não só tiveram algumas incertezas, mas caíram em erros reais. Muito mais ainda cairá um homem desprovido de cultura.

REQUEREM MORALMENTE UMA REVELAÇÃO: é dita necessidade moral aquela que não exclui outras possibilidades, mas que é praticamente indispensável e da qual não se pode prescindir. Assim, por exemplo, para desenhar um círculo perfeito não é absolutamente impossível traçá-lo a mão livre, mas na prática será necessário o compasso ou outro instrumento para que ele possa ficar perfeito. Tenho necessidade moral deste instrumento.

A revelação é moralmente necessária para que os homens tenham facilidade de alcançar seu fim último.

Esta tese é contra o naturalismo.

PROVA. A tese é comprovada por um argumento um histórico e um psicológico.

A) – ARGUMENTO HISTÓRICO. A História nos mostra que a humanidade por si só não soube alcançar as verdades éticas e religiosas sem cair nos erros mais graves tais como o politeísmo, a idolatria, a poligamia, os ritos cruéis e obscenos, etc. Com exceção da afirmação comum da existência de um poder supremo do qual o homem depende, as outras verdades religiosas foram quase todas falsificadas e alteradas em várias populações. Apesar de toda a brilhante cultura grega e as sublimes especulações de Platão e Aristóteles, a religião dos gregos se degenera em mitologia pueril e imoral.

Os próprios gregos mesclam graves erros às verdades objetos de sua especulação: o desprezo da família em Platão, e o não reconhecimento da dignidade humana, admitindo a escravidão, em Aristóteles.

A humanidade abandonada às suas próprias forças e considerada fora do Cristianismo nunca chegou ao pleno conhecimento da religião natural, substancialmente única para todos homens, e isso por uma impossibilidade moral, se não uma impossibilidade física e absoluta.

B) – ARGUMENTO PSICOLÓGICO. Já São Tomás de Aquino (Contra Gentiles i c. 4) elencava as dificuldades que a humanidade encontra para resolver o problema religioso. Pode-se resumir nos três pontos seguintes:

1) – Dada a dificuldade que a mente tem de chegar à verdade e a condição da maioria dos homens, apenas uma minoria pode aspirar ao conhecimento dessas verdades, e com muitas incertezas e erros.
2) – Essa minoria não pode ser um guia para todos homens.
3) – Disso decorre que a maior parte da humanidade é moralmente incapaz de alcançar o conhecimento da religião e, portanto, é moralmente necessária uma revelação divina, de modo que os homens possam facilmente chegar a seu fim último.

II TESE – A Revelação divina é absolutamente necessária em relação aos mistérios sobrenaturais, dada a hipótese de nossa elevação à ordem sobrenatural.

PROVA – Já mostramos que as forças humanas por si não podem alcançar o conhecimento dos mistérios sobrenaturais. Não somente não sabem penetrar na essência como não podem conhecer nem a existência. Ora, se Deus em sua infinita bondade eleva o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar da sua própria vida divina, tal elevação requer que o homem conheça verdades sobre a vida íntima de Deus, isto é, os mistérios propriamente ditos. Se Deus tivesse constituído o homem apenas em uma ordem natural, bastaria conhecê-lo e chegar a ele de um modo natural, somente com as forças humanas: a inteligência, a vontade e o conhecimento dele através daquilo que admiramos nas obras de sua criação. Nesta ordem natural, uma Revelação divina teria sido conveniente e útil, mas não necessária. Em vez disso, dada a hipótese de que Deus nos tenha querido e constituído em uma ordem sobrenatural, até a realização suprema da visão beatífica em que o veremos face a face, como Ele é em sua essência divina (conhecer a Deus em si mesmo, em sua divindade, como dizem os teólogos), não basta mais o conhecimento de Deus através das coisas criadas, onde há um raio do Criador, onde Deus expressou algo de si mesmo e de sua glória, mas onde não é narrada contada sua vida íntima. Dada esta hipótese, não podendo por isso o homem conhecer com suas próprias forças os mistérios da vida divina de modo que possa alcançar o seu fim, é necessário que Deus os manifeste.
Por isso é necessária a Revelação para conhecer a existência desses mistérios, e, a fortiori, é necessária para compreender algo da sua essência.

O Fato da Revelação

Dada a conveniência e necessidade de uma revelação, o homem não pode permanecer indiferente ao fato da revelação. Ela o toca intimamente, e não lhe diz respeito apenas aos fatos desta vida que passa, mas se projeta sobre seus destinos eternos, isto é, à chegada ao fim, que é por se dizer a chegada à sua felicidade.
Historicamente, muitas religiões se apresentam como a Religião Revelada.

É INDIFERENTE SEGUIR UMA OU OUTRA?
ENTRE ESSAS, QUAL É A QUE FOI VERDADEIRAMENTE REVELADA POR DEUS?

Em outras palavras, o homem não pode ficar indiferente ao dizer: por mim, haver ou não uma religião revelada é a mesma coisa; ou: entre tantas religiões que se dizem reveladas, para mim, seguir uma ou outra é indiferente.

Por isso, seguem as duas teses:

I TESE – Dada a necessidade moral de uma religião revelada, cabe a cada um a séria obrigação de procurar qual seja ela e de abraçá-la quando a encontrar.

É CORRETO

contra os racionalistas.

PROVA:

A) – PELO RESPEITO DEVIDO A DEUS – Se Deus revelou, Ele fez isso para que os homens, para o seu bem, conhecessem estas verdades. Por isso, eles têm a séria obrigação de procurar, de conhecer o que Deus revelou, e de seguir esses ensinamentos e mandamentos que Deus deu.

B) – PARA ALCANÇAR O NOSSO FIM. Para que todos homens possam conhecer prontamente, com certeza e sem erros o complexo das verdades que constituem a religião natural é moralmente necessária uma revelação divina; é ainda mais absolutamente necessária para as verdades sobrenaturais. Conhecendo todas essas verdades, o homem conhece também os meios apropriados para alcançar seu fim. Por isso, para conhecer esses meios, deve conhecer estas verdades e deve colocá-las em prática.

II TESE – O homem não pode professar qualquer religião que se diga revelada, mas é necessário buscar e abraçar a religião verdadeira.

Contra os imanentistas, os modernistas e os indiferentistas.

PROVA: Ao estudar as religiões historicamente, encontramos muitas que se dizem reveladas. Um erro que frequentemente se ouve repetir nos nossos dias é este: “Todas religiões são boas.” Este erro surgiu especialmente a partir da comunidade de pessoas que se encontram no mesmo país, com religião diferente; encontros hoje muito frequentes por causa da velocidade das comunicações. Muitas vezes a impressão também é maior, porque alguns não católicos observam sua religião com maior precisão do que fazem alguns católicos. Não é a observação de uma doutrina que a torna verdadeira. Um viajante que caminha numa estrada errada pode correr mais rapidamente do que outro que mal caminha ou para na estrada certa. O segundo está na estrada que o levaria à chegada prefixada, enquanto o primeiro, mesmo correndo, não vai em direção ao destino.

Assim também não se deve confundir a vontade salvífica de Deus para aqueles que estão no erro, dizendo que também eles estão no caminho da verdade. Aqueles que estão em uma falsa religião, se estão sem sua culpa acreditando estar na verdade e agem segundo a honestidade natural, na prática têm a vontade de observar o que Deus ordena; com um desejo inconsciente são orientados à religião verdadeira, embora não a conheçam, e assim Deus lhes providenciará a sua salvação eterna. Mas dizer que eles podem se salvar, dizer que estão na verdade, há uma diferença substancial.

A verdade não pode ser senão uma. Quando nas diferentes religiões que se dizem reveladas por Deus encontro algumas afirmações em contradição com o que outras dizem, concluo que a verdade não pode estar senão de um lado. Se, por exemplo, digo que agora é dia e outro diz que é noite, é certo que ambos não podemos ter razão. Assim, se uma religião me afirma que Deus revelou a existência do Purgatório, ou que os sacramentos são sete, e uma outra religião me nega isso, absolutamente não pode ser que uma e outra tenham razão. Ou Deus ensinou de uma forma ou de outra. Não pode ter revelado que uma coisa existe e ao mesmo tempo não existe.

Assim, a religião revelada não pode ser senão uma só.

É por isso que no movimento de Oxford que proclamou uma série de conferências entre as seitas protestantes para encontrar um entendimento comum, a Igreja Católica foi a única a não participar.

O acordo devia consistir nisto: que se uma Igreja acreditava, por exemplo, em dois sacramentos e uma outra, em cinco, se poderia fazer um meio-termo admitindo-se, por exemplo, três. A Igreja Católica naturalmente foi acusada de intransigência. Mas como fazer chegar a um acordo sobre uma determinada verdade de fé? Quando se trata de uma regra disciplinar, algumas mudanças poderiam ser feitas. Desse modo, de fato, a Igreja Católica mudou, por exemplo, a lei do jejum de acordo com as necessidades dos tempos, mas nunca poderia eximir os homens da ordem dada por Jesus Cristo para fazer penitência: “Se não fizerdes penitência, todos perecerão igualmente.” (Lc 13:5). Da mesma forma, se Jesus Cristo instituiu sete sacramentos, nem mais nem menos, não pode a Igreja, a fim de agradar aos outros, dizer que instituiu seis, nem dizer, por exemplo, a quem não crê na virgindade de Maria Santíssima, nem à existência do Purgatório: “Vós admitis comigo uma destas verdades, e eu renuncio convosco a crer em outra.” Uma religião que age assim, admitindo ou desaprovando a bel-prazer aquelas verdades em que se deve crer ou não, se mostra falsa por si própria: não são necessários outros argumentos para demonstrar que segue aquilo que pensam os homens e não aquilo que Deus revelou. É Deus que revela e os homens devem seguir o que Deus revelou. Não cabe aos homens mudarem a bel-prazer o que Deus nos fez conhecer.

O que dissemos indica claramente que entre as religiões que se dizem cristãs, uma só pode ser aquela revelada por Deus.

A fortiori, as outras religiões, que afirmam coisas todas diversas da religião católica, não podem ser verdadeiras, caso contrário, Deus teria dito e contradito uma mesma coisa ao mesmo tempo. Isso é repugnante à sua forte Sabedoria e Verdade.

** Extraído da “Somma di Teologia Dogmatica” de padre Giuseppe Casali

Traduzido para o Veritatis Splendor por Marcos Zamith do original disponível em http://christusveritas.altervista.org/teologia_dogmatica_rivelazione_divina.htm

http://www.veritatis.com.br/teologia/162-teologia-dogmatica/1371-a-revelacao-divina

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