Anglicanismo ontem e hoje

Pedro Ravazzano

A Igreja Anglicana hoje, dividida em diversas facções e alturas – Alta, Média e Baixa -, talvez seja o exemplo mais claro da decadência da fé quando não está alicerçada em fundamentos sólidos e verdadeiros. A separação de Roma não apenas foi um ato de supremacia nacional, mas, antes de qualquer coisa, a perda de um foco objetivo de verdade. Sem o reconhecimento da autoridade dada por Deus, isto é, do modelo institucional da Igreja, os ingleses transformaram a sua nova religião no cenário de uma batalha teológica infindável. 
A história do nascimento da Igreja Anglicana é notória. Ainda que hoje em dia os anglicanos busquem respaldar o surgimento da sua igreja oficial em movimentos separatistas pré-Reforma, o dado histórico verdadeiro mostra que o termo Ecclesia Anglicana, como fora usado constantemente para se referir à presença eclesiástica no reino inglês, sempre foi compreendido como sinônimo da Igreja “na Inglaterra” e não “da Inglaterra”, assim como se usava recorrentemente termos como Ecclesia Galicana, para se referir à Igreja na França, ou Ecclesia Hispanica, à Igreja na Espanha. Assim, pois, outorgando-se a alcunha de católica e reformada, a Igreja Anglicana surge da necessidade concreta de Henrique VIII legitimar a sua nova união. Obviamente o cenário favorecera enormemente a ascensão de teólogos e pensadores ligados ao pensamento luterano e, ademais, a devassidão do clero, encabeçado pelo Cardeal Wolsey, alimentava a fúria de muitos nobres inconformados com o poderio material dos bispos. 
Se inicialmente a Igreja Anglicana estava perdida no seu real propósito, sendo unicamente uma versão nacional e reformada da Igreja Católica, mas mantendo a mesma fé sacramental, no reino de Eduardo VI e Isabel I se estruturara mais claramente uma teologia genuinamente inglesa. No reinado do filho varão de Henrique VIII o protestantismo em sua versão mais radical, com claros cortes calvinistas, galgou espaços profundos no poder clerical institucional: vitrais e imagens destruídos, procissões, água benta, incensos proibidos, o celibato revogado, o sentido sacrificial da Santa Missa negado, altares substituídos por mesas moveis. Surge, assim, The Book of Common Prayer, pensado por Cranmer e que sintetiza a teologia anglicana. Tal radicalização possibilitou a estruturação do pensamento puritano que, no reinado de Isabel I, causara enormes divisões internas na Inglaterra. A “Rainha Virgem” conseguira pacificar o anseio reformista, combatera fortemente os levantes das seitas calvinistas e, por fim, destruíra todo o legado católico deixado por sua irmã, Maria I. 
Hoje a Igreja Anglicana surge como o maior exemplo das contradições internas do protestantismo. As igrejas nacionais dos países escandinavos largaram o radical puritanismo e debandaram para o relativismo moral e doutrinal. Entretanto, a Igreja da Inglaterra se orgulha de reunir sob a mesma autoridade a tradição evangélica – Low Church – que enfatiza o aspecto reformado da identidade anglicana, aclamando a autoridade da Escritura ao modo calvinista e reconhecendo a justificação, a tradição católica – High Church – que ressurgiu como o Movimento de Oxford em 1830, e que enxerga a Igreja Anglicana na continuidade da Igreja dos tempos patrístico e medieval, destacando, ademais, o caráter visível da instituição eclesiástica mediante a estrutura hierárquica ministerial de pretensa origem apostólica. Por fim, a tradição liberal – Middle Church – que partindo de princípios teológicos progressistas pretende responder aos questionamentos do homem moderno e que hoje responde por parte considerável da sensibilidade teológica anglicana mainstream. 
Atualmente, contudo, a Igreja Anglicana se fragmenta cada vez mais em siglas que têm percepções práticas da fé cristã totalmente opostas. Aspectos morais, como a ordenação de mulheres e homossexuais, assim como a legitimação da união de parceiros do mesmo sexo, têm instigado feridas profundas dentro da Comunhão Anglicana. Nesse aspecto o pastoreio de Rowan Williams na Cantuária é uma clara amostra da capacidade da Igreja da Inglaterra de conciliar o inconciliável. O Primaz, em sua posição teológica, simpatiza com leituras liberais, mas, ao mesmo tempo, adota um tom em defesa da ortodoxia e da vida sacramental típica das alas anglo-católicas. Ademais, Williams busca pacificar as tensões entre os grupos conservadores e progressistas da sua Igreja. Ao mesmo tempo em que nomeara Drexel Gomez, conhecido bispo conservador anglicano, para a Lambeth Conference e possibilitara a criação do Windsor Report para estudar o caso da sagração episcopal de Gene Robinson, homossexual não-celibatário, e das bênçãos matrimoniais às uniões homossexuais na diocese de Nova Westminster, fora ele mesmo pouco engajado no combate ao crescimento da sensibilidade moral progressista na sua Comunhão. A consequência foi a debandada de bispos conservadores em todo o mundo, o aumento das tensões internas e o fortalecimento do progressismo na Igreja Episcopal dos EUA, na Igreja Anglicana do Canadá e em todas as Igrejas nacionais dos países que compõem o Reino Unido. 
Pode-se considerar, portanto, que a situação atual do anglicanismo reflete a sua gênese histórica. A intencional busca pela descaraterização do clero, como pensada principalmente por Cromwell e diversos outros “humanistas” da época, gerou consequentemente a desconstrução da identidade que marca a vida consagrada. Ademais, a influência da teologia católica, luterana e calvinista, e o modo como cada uma delas ascendia e caia a depender do entusiasmo dos bispos e dos monarcas, fez com que a Igreja Anglicana jamais pudesse organizar uma unidade de pensamento. Diante deste histórico a teologia liberal encontrou o habitat ideal para se proliferar. Além disso, mediante a íntima relação com o poder secular, pôde canalizar todas as tensões do mundo para dentro da vida eclesial, perdendo, portanto, o caráter missivo e transformador do Evangelho.
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