A maldição da teologia deuteronômica

Rui Luis Rodrigues

Em muitos aspectos o Exílio babilônico, suportado pelo reino de Judá a partir de 587 a. C., foi a fonte de avanços significativos na compreensão que esse povo tinha de seu Deus. Foi a partir dali que o javismo – termo pelo qual os estudiosos se referem à fé em Yahweh até o momento do Exílio – passou a reconhecer o caráter único de Deus, tão belamente descrito em passagens do Dêutero-Isaías (a porção do livro de Isaías escrita na época do Exílio e que corresponde aos capítulos 40-55) como, sobretudo, o capítulo 44.

Mas os ganhos também foram acompanhados por fraquezas. É preciso que compreendamos que isto faz parte das dinâmicas formativas da Escritura Sagrada. A Bíblia não é texto “divino”, mas relato humano através do qual Deus conseguiu revelar a Si próprio. A revelação de Deus está presente no texto, mas este foi construído humanamente e, em consequência, carrega as marcas e limitações de toda produção humana.

Um dos aspectos negativos adquiridos pelo javismo durante o Exílio (e que se desenvolveu enormemente no retorno para a Palestina) foi a teologia deuteronômica. Nenhum estudioso sério do Antigo Testamento questiona, hoje, o caráter pós-exílico do Deuteronômio e a releitura da Lei que esse texto faz. Indubitavelmente nesse texto encontramos grandes riquezas em termos de percepção do caráter de Deus e do seu amor. Mas isso vem misturado a outros elementos. Um desses elementos é o caráter retributivo dessa teologia, exemplarmente representado pelas bênçãos e maldições do capítulo 28.

O javismo precisava, no Exílio, compreender o próprio fato de sua desgraça, entender as causas que levaram à extinção do reino de Judá; sobretudo, precisava entender por que Deus permitira aqueles acontecimentos. A alternativa seria supor que o próprio Yahweh fora derrotado, em batalha cósmica, pelos deuses mesopotâmios. Essa explicação foi rejeitada fortemente pela escola profética de Isaías. Ao contrário, do cadinho do sofrimento emergiu a fé firmemente monoteísta que, a partir de então, iria caracterizar o javismo (até então o javismo era henoteísta, ou seja, cria na existência de vários deuses, cada um com autoridade sobre seu próprio território; daí porque a derrota dos judeus em sua própria terra era um problema teológico de enorme magnitude).

A explicação mais plausível parecia ser a de que Deus entregara seu povo ao sofrimento do Exílio em retribuição de sua infidelidade. Naquele contexto era impossível àqueles homens e mulheres qualquer consideração sobre o caráter histórico e social de seu próprio sofrimento; eles não conseguiam perceber o fato, para nós simples, de que foram submetidos aos babilônios porque estes se erguiam então como potência “mundial” (a rigor, como potência predominante no Oriente próximo). Precisamos compreender bem este ponto: imaginar que o Exílio fora concessão de Deus por causa da infidelidade de Judá serviu para preservar, no javismo, a fé em Yahweh como Deus que ama seu povo e se interessa por ele. Isso foi de valor inestimável. Mas, ao mesmo tempo, essa explicação lançava uma sombra sobre a imagem de Deus.

O caráter mais perverso da imagem de Deus que essa concepção formou foi, justamente, a teologia retributiva que encontramos em Deuteronômio 28. Essa teologia, segundo a qual sofrimentos resultam sempre da maldição que se segue à desobediência e prosperidade é a consequência lógica da obediência, incorporou-se à mentalidade judaica desde então. Culminará, nos dias de Jesus, naquela atitude religiosa que enxergará a desobediência de alguém como causa, por exemplo, de uma cegueira congênita (ver João 9:2 e a contundente negativa de Jesus, no versículo seguinte). Nos dias de Jesus essa teologia ganhou um peso opressivo todo especial: num contexto de miséria motivada, sobretudo, pela dominação estrangeira, a parcela mais sofredora do povo era mantida em duplo cativeiro; o cativeiro social, fruto da opressão estrangeira, e o cativeiro religioso, segundo o qual sua própria miséria era fruto de desobediência, pecado e negligência da Lei (ver, a propósito, a atitude dos líderes religiosos a respeito do povo, expressa em João 7:49).

É interessante perceber, também, como a própria teologia dos “amigos de Jó” (rejeitada como um todo pela lógica do livro) é essa mesma teologia deuteronômica: os amigos de Jó acreditavam que o sofrimento de seu amigo só podia ser fruto de pecado. Como sabemos hoje, o livro de Jó é de redação pós-exílica, tendo sido composto como reação a esse ambiente no qual a teologia deuteronômica começava a predominar.

Mas o golpe de misericórdia sobre a teologia retributiva de Deuteronômio veio por conta da revelação neotestamentária. Jesus recusa fortemente essa teologia; ele não vê a desobediência como causa de sofrimento (ver a respeito Lucas 13:1-5). Na redação lucana, pedagogicamente se preserva o chamado, de todos, ao arrependimento (é bom lembrar que Jesus não estava preocupado em esclarecer teologicamente qualquer debate, e nem Lucas estava compondo um texto de teologia sistemática ao escrever seu evangelho); mas o caráter gracioso e paciente do Evangelho se revela na parábola imediatamente seguinte, a da figueira estéril (Lucas 13:6-9). Fica claro, aqui, que o Abbá, o Pai de Jesus, prefere sempre a paciência a qualquer tipo de retribuição.

Porque o Pai é aquele que “faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Sol e chuva, aqui, são bênçãos, são dádivas graciosas do Pai (como facilmente compreenderia qualquer sociedade agrária). Esses dons não vêm sobre os obedientes apenas; e muitas vezes eles faltam a quem se mantém fiel a Deus. Qualquer comunidade de cristãos radicada no interior do sertão nordestino sabe disso melhor do que nós; ali, numa região tão ignorada pelos pregadores da chamada “teologia da prosperidade” (que, por sinal, é profundamente deuteronômica em sua abordagem), sabe-se claramente que a seca vem também sobre gente boa, justa e praticante da Escritura.

O Novo Testamento não se preocupa em explicar por que chove sobre uns e não sobre outros; essa explicação nós a podemos obter, facilmente, a partir de nossos próprios esforços, se tão somente mantivermos os olhos abertos. Mas a mensagem de Jesus nos diz claramente quem Deus não é: Deus não é o deus vingativo da teologia deuteronômica, que retribui com sofrimentos a quem deixa de obedecê-lo; Deus não é o deus de favorecimentos, que faz chover sobre um e tranca os céus para outro. Deus é, para com todos, amor, entrega, doação.

Provavelmente é aqui que a imagem de Deus Pai, revelada por Jesus Cristo, ganha sua força mais plena, mais intensa. Quem é mais forte? Quem exige o serviço e a obediência dos outros ou quem, humildemente, se torna servo dos demais? O deus da teologia deuteronômica é de comandos e retribuições; o Deus e Pai de Jesus Cristo é de amor, de serviço inclusive àqueles que o ignoram e não dão pela sua existência. O que Jesus fez no cenáculo (João 13:1-15) é tão somente a realização, no palco das relações humanas, daquilo que Deus faz diariamente no palco do cosmo. O próprio Jesus foi quem expressou isso com clareza absoluta, na redação tão bela do texto lucano: “Pois, qual é o maior: o que está à mesa, ou aquele que serve? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve” (Lucas 22:27).

Tais esclarecimentos sobre o conteúdo da teologia deuteronômica não devem nos levar a rejeitar o texto bíblico de Deuteronômio, ou qualquer outro texto da Escritura; devemos é aprender a lê-lo, a interpretá-lo adequadamente. É natural que, no processo de se aproximar de Deus e de conhecê-lo melhor, os seres humanos tenham produzido equívocos momentâneos, tenham edificado imagens de Deus que não correspondiam plenamente à verdade. A teologia deuteronômica e seus desdobramentos constituem um exemplo desse tipo de construção inadequada.

O próprio Deus tolerou isso, no longo processo de se revelar a homens e mulheres dentro da história. O que precisamos é ler a Escritura toda a partir da Jesus e da imagem de Deus que Jesus nos trouxe. Há uma hierarquia nos textos, já nos lembrava Lutero no século XVI, e essa hierarquia é deslindada pela pessoa de Jesus Cristo. Ele, imagem do Deus invisível (Colossenses 1:15), é quem nos ensina a, iluminados pelo conjunto da revelação bíblica, reconhecermos a glória do Pai que brilha na sua face (2 Coríntios 4:6).

http://www.pavablog.com/2012/12/09/a-maldicao-da-teologia-deuteronomica/#more-83446

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