O polilogismo da esquerda tupiniquim

Pedro Ravazzano

O polilogismo é uma das maiores falácias usadas pelos regimes totalitários. Marxistas e nazistas lançaram mão desse artifício para blindar as suas respectivas doutrinas dos ataques acadêmicos. Para os primeiros, o ser burguês, quase como um atributo onto-antropológico, é decisivo no modo como o homem enxerga a realidade. Desse modo, existiria tanto o olhar “reacionário” como a visão proletária. As classes reproduzem uma forma de pensar desde os seus mais corriqueiros atos cotidianos até ao modo como concebe a reflexão racional. Os nazistas, assim como seus primos marxistas, fizeram uso do mesmo princípio, o remodelando, obviamente, para o aspecto étnico. Na atualidade, tal polilogismo ainda se mantém em muitos segmentos da esquerda, em especial latino-americana, fortemente marca pelo ar conspiracionista e vitimista. 
 
Os atuais promotores do polilogismo, contudo, apelam para outros artifícios. Um dos mais recorrentes é a mídia. Explico-me. Hoje qualquer crítico do establishment esquerdista, antes mesmo de ter seus argumentos analisados pelos militantes, vai se deparar com a acusação de que a sua visão é, na verdade, reflexo da absorção indiscriminada das notícias veiculadas por uma mídia “reacionária”. Aqueles que se afastam dos paradigmas socializantes da esquerda são rapidamente transformados em leitores da Veja, do Correio da Bahia e fãs de William Bonner. Aqui entram dois absurdos: o primeiro é já partir da premissa de que a imprensa não-esquerdista é necessariamente golpista e fonte falsa de informação e, o segundo, é creditar a estas fontes o cabedal de conhecimento dos opositores. O primor da imprensa “democrática” se encontraria em publicações como Caros Amigos, Carta Capital e TV Brasil. Ademais, é assustador pensar que são estes os mesmos que defendem a reforma da liberdade de imprensa em nome da “pluralidade”. 
 
Outro aspecto interessante do polilogismo tupiniquim é como ele se mostra atualmente: o caráter nacionalista. O “sucesso” do governo petista despertou a esquerda para aquilo que ele nunca nutriu: amor à pátria. Entretanto, se o patriotismo é um sentimento legítimo, o nacionalismo é uma doença moderna. Os críticos se deparam, assim, com uma outra acusação, isto é, formam uma casta americanizada e inimiga dos interesses nacionais. Nesse sentido, estaríamos mais preocupados com a nevada em Nova Iorque do que com as enchentes no Capão Redondo. Trata-se, pois, de um grupo privilegiado que lê inglês e que acha que o Brasil é terra de turista rico. 
 
Surge, ao final, o terceiro paradigma polilógico, e um dos mais clássicos: a famigerada elite. O polilogismo tem a capacidade de direcionar ao outro a alcunha de elitista. Para Hitler eram os judeus exploradores, para Marx os burgueses donos dos meios de produção, para os petistas qualquer tipo de opositor. Claro que não necessariamente há uma correspondência entre a acusação de “elitista” e a realidade de ser da elite. Não importa, sempre haverá uma carta na manga, como afirmar que alguém é manipulado pelos “donos do poder” e lê jornais com notícias forjadas. O elitismo é, portanto, uma força onipresente. Obviamente não há nenhuma coerência nesse argumento. O próprio Marx, inclusive, era proveniente da elite burguesa alemã e, ainda assim, foi capaz de produzir um pensamento “não-reacionário”, fugindo do determinismo social que o próprio criara. Ser acusado de elitismo é ser lançado ao ostracismo social, ainda que quem o acusa seja tão ou mais abastado que você. Elite seria não uma condição, mas um estado de espírito. 
 
O polilogismo não te deixa saída. Usando da chave de leitura popperiana pode ser dito que é uma concepção infalsificável. Todo o seu pensamento está condicionado: seja pela mídia, seja pela americanização anti-nacional, seja pelo elitismo. Você, estimado opositor, sempre será encaixado em algum desses padrões. É como o louco que diz que não é louco comprovando a sua loucura. Por isso a discussão se torna tão estéril, já que os argumentos de tão “contextualizados” polilogicamente perdem a credibilidade – “Você é branco, classe média, fala inglês e assiste Globo News, você não sabe o que está dizendo”. Ao final da discussão os seus amigos esquerdistas, muitos dos quais estavam discutindo contigo nos seus macs e iphones, indicarão que tome um “banho de povo” e passe a ler outras fontes mais idôneas de informação, como os blogs partidários e as revistas patrocinadas pelo governo.
Anúncios

2 pensamentos sobre “O polilogismo da esquerda tupiniquim

  1. Mas PT nem é considerado da esquerda. Não há maneiras de associar PT ao socialismo ou comunismo.

    Outra, é interessante que tentar atacar as categorias de análise do outro só demonstra que, antes mesmo de mostrar que falta lógica no discurso do outro, é mais importante ridicularizar suas categorias de análise. Ou seja, não se torna necessário demonstrar a ilogicidade de seu discurso.

Caro leitor, peço que seu comentário seja sempre em relação à publicação. Obrigado!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s