Fideísmo, o erro oposto ao cientificismo

Daniel Marques

A velocidade transformou-se na característica principal de nossa sociedade e em critério de qualidade. O novo apresenta-se automaticamente como melhor que o antigo. Os avanços tecnológicos se aplicam não apenas ao mundo exterior, mas de modo totalmente novo e radical ao ser humano. Realidades antes apenas contempladas na ficção entram em cheio na vida das pessoas. Problemas como os estudos com células-tronco, o aborto seletivo, a possível clonagem de seres humanos e a eutanásia são questões que saltaram do mundo acadêmico ou dos filmes e tocam o âmbito jurídico, político, social e econômico. O que dizer sobre tudo isso?
Será que o tecnologicamente possível é sempre eticamente viável? Será que a ciência e a ética estão completamente desconectadas? Será que a ética só pode ser entendida dentro de um contexto religioso e como tal deve ser rejeitada? Existe um ponto de racionalidade comum a todos os seres humanos da qual possa nascer uma ética universal independente de uma confissão religiosa específica? Buscar essa ética universal significa rejeitar a priori toda manifestação religiosa concreta, pois seria um obstáculo para a universalidade?

É inegável que a maioria dos confrontos de hoje em dia entre religião e ciência tem como campo de batalha a bioética. É muito natural que, diante de conflitos e problemas, busquemos logo soluções práticas. Contudo, uma ortopráxis sem uma ortodoxia mostra-se algumas vezes como contraproducente.

No Brasil, há um grande embate sobre a questão da vida. No ano passado, inúmeros grupos cristãos protestaram contra a decisão do Supremo Tribunal Federal em permitir o aborto em caso de bebês diagnosticados com anencefalia. Da mesma forma, protestaram contra o anteprojeto do novo Código Penal, que prevê um notável abrandamento da lei em relação ao aborto e deixa brechas para implantar a eutanásia no país. Por um lado, uma parte dos que defendem o aborto e a eutanásia considera que argumentos contrários a essas práticas pertencem a uma esfera da subjetividade religiosa e que não devem ser um critério objetivo para uma decisão em vista da promoção de uma sociedade justa. Por outro lado, uma parte dos cristãos que defendem a vida afirma que sua importância só pode ser percebida plenamente através da fé, elemento que falta aos que a atacam.

Apresentam-se assim duas posturas opostas: o fideísmo religioso e o racionalismo materialista-cientificista. Na dimensão de tal antagonismo não é possível o diálogo, pois são mundos incomensuráveis e com jogos de palavras próprios. No entanto, apesar de uma aparente divergência, há uma unidade de método, pois a lógica que impera em ambas é a do poder e da força. Como as duas posturas se apresentam equidistantes ou incomunicáveis, nunca se chegará a um consenso através da verdade, mas através da imposição e da propaganda.

A harmonia entre razão e fé, ciência e religião não é algo apenas a ser construído, mas sobretudo descoberto e manifestado. Não são dois elementos in se, separados. A comunhão entre esses dois campos brota da única natureza humana. Eles fazem parte do nosso ser e se manifestam em nosso pensar e agir. Uma ponte entre ciência e religião não precisa ser construída – ela já existe, pois o ser humano é o cidadão dos dois mundos. O ser humano é, em si, a ponte. Atacar a ciência e a razão, a fé e a religião é atacar, ao mesmo tempo, o ser humano.

Uma postura cientificista ou fideísta traz em si uma visão de ser humano que torna incompatível o diálogo entre ciência e religião, bem como consequências éticas terríveis para a humanidade. Meus colegas nesta coluna já comentaram em várias ocasiões o tema do cientificismo, a noção de que o único conhecimento válido é o que pode ser conferido empiricamente. Hoje, vamos nos dedicar ao erro oposto, o fideísmo, uma postura igualmente perigosa que nos conduz a uma visão de ser humano que cria ruptura entre a fé e a razão.

No fideísmo, a razão humana está de tal modo corrompida pelo pecado que lhe seria impossível alcançar qualquer verdade sobre Deus, sobre o mundo e sobre si mesmo, se não fosse por uma intervenção direta de Deus através da graça do Espirito Santo e da revelação contida na Sagrada Escritura, que deve ser estudada e interpretada literalmente, pois cada caractere bíblico é a manifestação exata e concreta da vontade de Deus. Essa postura nega qualquer importância de outras ciências como a História, a Paleontologia, a Filosofia, a Biologia e a Física como fontes de conhecimento verdadeiras e que, em certo modo, ajudam a uma melhor compreensão da fé. A vida humana só pode ser defendida desde o âmbito da Sagrada Escritura. Naturalmente o homem está privado de perceber com a luz da razão o valor e a dignidade da pessoa humana em si mesma.

Para o fideísta, o ser humano é um ser corrompido; sua dimensão racional e espiritual está completamente separada; e somente uma ação extrínseca (a ação divina) pode produzir verdade. Fora disso, qualquer outra ciência é uma construção puramente subjetiva e imperfeita. Novamente cria-se nessa postura dualista uma cisão entre ciência e religião, razão e fé.

A tendência geral ao fideísmo é muito forte e natural no âmbito das religiões, pois elas buscam constantemente escutar a voz de Deus para poder atuar. Desse modo, podem justificar que qualquer negação do estatuto de pessoa humana a um embrião desde a concepção se deve a uma corrupção da inteligência e da vontade que impede as pessoas de ver o caminho correto a seguir.

Poder-se-ia ressaltar que tanto o fideísmo quanto o materialismo possuem um mesmo fundamento. Uma desconfiança da razão, seja para captar a verdade das coisas naturais (como no fideísmo), como para captar a verdade das coisas sobrenaturais (como no cientificismo). Há uma impossibilidade intrínseca de diálogo entre esses dois mundos. Uma razão humana degradada e incapaz de descobrir (de modo apreensivo e não omnicompreensivo) a verdade das coisas em toda sua complexidade conduz à impossibilidade da existência de qualquer verdade absoluta. A filosofia hermenêutica presente na obra Verdade e Método, de Gadamer, é um exemplo. O homem constrói a verdade segundo seu grupo social e cultura, e este grupo, com “suas verdades”, constrói o homem e a verdade das coisas. A verdade é sempre mutável e não um termo ad quo, não há uma finalidade para a vida humana, mas apenas uma construção de algo caótico a um nada último.

Essa visão epistemológica se apresenta como fundamento do relativismo moral e do indiferentismo religioso. Quando tudo é verdade, não existe verdade. E, quando nada é objetivamente verdadeiro, todas as coisas são colocadas no mesmo plano, perdendo seu valor. Isso priva a racionalidade humana do principio de não contradição, conduzindo a humanidade a ações bárbaras. Sob a bandeira da tolerância, o relativismo implanta uma verdadeira ditadura da força e do poder. Pois, quando não há uma verdade como critério e medida de nossas ações, impera a verdade subjetiva dos mais fortes. Por isso, políticas e medidas sociais são implantadas não em vista de um bem comum, ou sob um critério de bondade e verdade, mas segundo pressões sociais, econômicas ou interesses privados. O homem volta-se contra o mesmo homem, pois, ferido em sua racionalidade, é incapaz de perceber as consequências de seus atos que vão contra a razão.

Tanto o fideísta quanto o cientificista/racionalista, convencidos da impossibilidade de um diálogo natural e enriquecedor entre os dois mundos, buscarão estratégias de poder e de dominação pela força. A ruptura entre ratio e fides é definitivamente uma ruptura entre a realidade material e espiritual, que se encontra unida na pessoa humana. Em nossas próximas colunas, voltaremos a esse tema.

http://www.cienciafecultura.org/

 

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