Jesus Cristo realmente existiu? O que dizem as fontes não-religiosas?

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Carlos Martins Nabeto

Algumas pessoas afirmam que Jesus Cristo nunca existiu. Alegam que a vida de Jesus e os evangelhos são mitos criados pela Igreja. Essa lamentável afirmação se baseia, principalmente, na crença de que não existem registros históricos de Jesus.

Tal carência de registros seculares (isto é, não ligados à esfera religiosa) não deve surpreender os cristãos de hoje. Primeiro, porque apenas uma pequena fração dos registros escritos sobreviveram ao tempo (nada, nada, são 20 séculos!). Segundo, porque existiam poucos – se é que de fato realmente existiam – “jornalistas” na Palestina do tempo de Jesus. Terceiro, porque os romanos viam o povo judeu como apenas mais um dos grupos étnicas que precisavam tolerar; os romanos tinham pouquíssima consideração para com o povo judeu. Finalmente, porque os líderes judeus também ansiavam esquecer Jesus. Assim, os escritores seculares somente começaram a se referir sobre o Cristianismo quando este movimento religioso tornou-se popular e começou a incomodar o estilo de vida que tinham.

Ainda que os testemunhos seculares sobre Jesus sejam raros, existem alguns poucos que sobreviveram ao tempo e faz referências a Ele. Não é de se surpreender que os registros não cristãos mais antigos tenham sido feitos por judeus. Flávio Josefo, que viveu até 98 dC, era um historiador judeu romanizado. Ele escreveu livros sobre a História dos Judeus para o povo romano. Em seu livro, “Antiguidades Judaicas”, ele faz algumas referências a Jesus. Em uma delas, ele escreve:

Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, que praticou boas obras e cujas virtudes eram reconhecidas. Muitos judeis e pessoas de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e morto. Porém, aqueles que se tornaram seus discípulos pregaram sua doutrina. Eles afirmam que Jesus apareceu a eles três dias após a sua crucificação e que está vivo. Talvez ele fosse o Messias previsto pelos maravilhosos prognósticos dos profetas” (Josefo, “Antiguidades Judaicas” XVIII,3,2).

Muito embora diversas formas deste texto em particular tenham sobrevivido nestes vinte séculos, todas elas concordam com a versão citada acima. Tal versão é considerada a mais próxima do original – reduzindo as suspeitas de adulteração do texto por mãos cristãs. Em outros lugares de sua obra, Josefo também registra a execução de São João Batista (XVIII,5,2) e o martírio de São Tiago o Justo (XX,9,1), referindo-se a este como “o irmão de Jesus que era chamado Cristo”. Deve-se notar que o emprego do verbo “ser” no passado, na expressão “Jesus que ERA chamado Cristo” testemunha contra uma possível adulteração cristã já que um cristão certamente escreveria “Jesus que É chamado Cristo”.

Uma outra fonte judaica, o Talmude, faz algumas referência históricas a Jesus. De acordo com o Dicionário da American Heritage, o Talmude é “a coleção de antigos escritos rabínicos que consiste da Mishná e da Gemara, e que constitui a base da autoridade religiosa para o Judaísmo tradicional”. Ainda que não faça referência explícita ao nome de Jesus, os rabinos identificam a pessoa em questão com Jesus. Essas referências a Jesus não são simpáticas nem a Ele nem à sua Igreja. Esses escritos também foram preservados através dos séculos pelos judeus, de maneira que os cristão não podem ser acusados de terem adulterado o texto.

O Talmude registra os milagres de Jesus; não é feita nenhuma tentativa de negá-los, mas relaciona-os como frutos de artes mágicas do Egito. Também sua crucificação é datada como tendo “ocorrido na véspera da Festa da Páscoa”, em concordância com os evangelhos (Lc 22,1ss; Jo 19,31ss). Também de forma semelhante ao evangelho (Mt 27,51), o Talmude registra a ocorrência do terremoto e o véu do templo que se dividiu em dois durante a morte de Jesus. Josefo, em sua obra “A Guerra Judaica” também confirma esses eventos.

No início do séc. II, os romanos começaram a escrever sobre os cristãos e Jesus. Plínio o Moço, procônsul na Ásia Menor, em 111 dC escreveu em uma carta dirigida ao imperador Trajano:

…[os cristãos] têm como hábito reunir-se em uma dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição…” (Plínio, Epístola 97).

Uma atenção especial deve ser dada à frase “a Cristo como se este fosse um deus”; trata-se de um testemunho secular primitivo atestando a crença na divindade de Cristo (Jo 20,28; Fil 2,6). Também é interessante comparar esta passagem com At 20,7-11, que é uma narração bíblica sobre a primitiva celebração cristã do domingo.

Um outro historiador romano, Tácito, respeitado pelos modernos pesquisadores por causa de sua precisão histórica, escreveu em 115 dC sobre Cristo e sua Igreja:

“O fundador da seita foi Crestus, executado no tempo de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos. Essa superstição perniciosa, controlada por certo tempo, brotou novamente, não apenas em toda a Judéia… mas também em toda a cidade de Roma…” (Tácito, “Anais” XV,44).

Mesmo desprezando a fé cristã, Tácito tratou a execução de Cristo como fato histórico, fazendo relação com eventos e líderes romanos (cf. Lc 3,1ss).

Outros testemunhos seculares ao Jesus histórico incluem Suetônio em sua “Biografia de Cláudio”, Phlegan (que registrou o eclipse do sol durante a morte de Jesus) e até mesmo Celso, um filósofo pagão. Precisamos manter em mente que a maioria dessas fontes não eram apenas seculares mas também anti-cristãs. Esses autores seculares, inclusive os escritores judeus, não desejavam ou intencionavam promover o Cristianismo. Eles não tinham motivação alguma para distorcer seus registros em favor do Cristianismo. Plínio realmente punia os cristãos pela sua fé. Se Jesus fosse um simples mito ou sua execução uma mentira, Tácito teria relatado tal fato; certamente, ele não teria ligado a execução de Jesus com líderes romanos. Esses escritos, portanto, apresentam Jesus como um personagem real e histórico. Negar a confiabilidade dessas fontes que citam Jesus seria negar todo o resto da história antiga.

Não é intenção deste artigo provar que esses antigos escritos seculares testemunham que Jesus seja o Filho de Deus ou o Cristo. Porém, esses registros mostram que um homem virtuoso chamado Jesus viveu nesta Terra no início do séc. I dC e fundou um movimento religioso que perdura até os nossos dias. Esse Homem foi chamado de Cristo – o Messias. Os cristãos do primeiro século também O consideravam como Deus. Por fim, esses escritos suportam outros fatos encontrados na Bíblia a respeito da vida de Jesus. Logo, afirmar que Jesus nunca existiu e que sua vida é um mero mito compromete a confiabilidade de toda a história antiga.

http://blog.comshalom.org/carmadelio/52619-jesus-cristo-realmente-existiu-que-nos-diz-as-fontes-historicas-nao-religiosas

TSE estuda controlar influência das igrejas nas eleições

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Publicado na Veja

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estuda uma cláusula para bloquear o uso do poder econômico e a influência das igrejas nas eleições, afirma o presidente da Corte eleitoral, Gilmar Mendes.

“Depois da proibição das doações empresariais pelo Supremo Tribunal Federal (STF), hoje quem tem dinheiro? As igrejas. Além do poder de persuasão. O cidadão reúne 100 mil pessoas num lugar e diz ‘meu candidato é esse’. Estamos discutindo para cassar isso”, diz o ministro.

Para Mendes, há um uso da religião para influenciar as eleições, contando ainda com os recursos das igrejas, não apenas material, mas a própria estrutura física. “Outra coisa é fazer com que o próprio fiel doe. Ou pegar o dinheiro da igreja para financiar”, afirma. “Se disser que agora o caminho para o céu passa pela doação de 100 reais, porque eu não vou para o céu?”, ironiza.

De acordo com Gilmar Mendes, há um potencial para abuso de poder econômico de “difícil verificação”, e existe a necessidade de o TSE agir.

Na Câmara dos Deputados, a bancada evangélica cresce a cada eleição. De acordo com dados do TSE, em 1998, eram 47 parlamentares. Em 2014, foram eleitos 80.

A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso, no entanto, tem 181 deputados e quatro senadores participantes – que incluem, além dos próprios deputados ligados às igrejas, simpatizantes e outros parlamentares que defendem as mesmas pautas, normalmente bastante conservadoras.

Na população em geral, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os evangélicos representam 22% dos brasileiros.

http://www.pavablog.com/2017/03/09/tse-estuda-controlar-influencia-das-igrejas-nas-eleicoes/

Microcefalia e eugenia: rejeitamos esse tipo de sociedade fundada em uma moral utilitarista que descarta pessoas consideradas ‘inviáveis’

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Fernando Fernandes

Praticada desde a Grécia antiga, a Eugenia se fundamenta na ideia de aprimoramento da população por meio de seleção artificial. Em Esparta, por exemplo, onde o valor do indivíduo estava centrado na sua capacidade de servir, como bom soldado, à Pólis – algo aproximado da nossa noção moderna de Estado. Os recém-nascidos eram propriedades da Pólis e, em tenra idade, eram examinados e sua vida ou morte era decidida. A regra era a eliminação de todos os que fossem portadores de deficiência física ou mental, ou não fossem suficientemente robustos para o combate.

Com recuos ou avanços, a ideia eugênica sempre povoou a prática da humanidade. É inerente à natureza humana a inclinação para maximizar nossos benefícios e, sempre que possível, reduzir nossos custos; maximizar nosso prazer e reduzir nossa dor. Se no passado o infanticídio eugênico se justificava pela “monstruosidade” ou pela superstição contra os “filhos do demônio”, é nos séculos XIX e XX que a eugenia ganha contornos racistas, sexistas e genocidas.

Na Inglaterra do século de XIX, Francis Galton, influenciado pela obra de Charles Darwin, propôs, com base na transmissão hereditária de inteligência, a prática de casamentos seletivos em nome de evitar-se uma “degeneração biológica” das famílias mais ricas e cultas. Já ouviu este argumento antes? A tentação de incluir Hitler neste assunto é grande, mas este é um caminho muito fácil que não tomarei.

Na década de 1930, os EUA estavam respirando os ares da pseudociência da eugenia com o propósito de separar os “incapazes”: portadores de patologias mentais – entre esses, as mulheres adúlteras – os loucos, os criminosos, os epiléticos, os cegos, os surdos, dentre outros.  Alguns eugenistas defendiam a eutanásia e até a esterilização forçada dos “degenerados”.

Com o fim da segunda guerra mundial e com a queda em descrédito do darwinismo social, a sanha eugênica foi sendo deixada de lado, ainda que instituições eugênicas sobrevivam, com outros nomes, até hoje. A eugenia declinou; seja na sua versão “positiva”, isto é, aumentar o número de indivíduos “aptos” ou “aceitáveis”; seja, na versão “negativa” em que objetiva impedir a reprodução dos indivíduos “problemáticos”.

Mas, Banânia ( Brasil ) consegue nos surpreender não é mesmo?! Faz uma semana, aproximadamente, que pululam em nossos jornais uma defesa absurda desse assunto que se tornou página virada na história: a eugenia. Os “degenerados” da vez são os portadores de microcefalia decorrente do zika vírus. Um juiz de direito, que autorizou uma série de abortos legais em casos de anencefalia e outras doenças raras, disse que a interrupção da gravidez em casos de microcefalia é válida, fazendo uma interpretação extensiva das razões que autorizam o aborto anencefálico.

Uma professora do Anis – Instituto de Bioética, especialista em bioética e antropóloga, vê eugenia nas políticas públicas que envolvem o controle de nascimentos. Entretanto, não vê eugenia no aborto do feto portador de microcefalia, caso existam falhas de políticas públicas realizadas pelo Estado – uma constante autoevidente. Segundo ela, em entrevista para a BBC Brasil: “Ou o Estado oferece as melhores condições e cuidado permanente aos recém-nascidos com microcefalia, ou permite que as mulheres possam fazer a escolha individual de interromper suas gestações”. E ainda: “O aborto não é uma solução para esta tragédia, mas seria uma forma de proteger as mulheres vítimas da falta de políticas efetivas para erradicação da doença.” Esta é a mesma cientista que liderou o pedido que legalizou o aborto no caso de fetos anencéfalos na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 54. Agora, seu arsenal pró-aborto se volta contra os microcéfalos, conforme expõe ao UOL.

Falando à ÉPOCA, a diretora do Centro Latino-Americano de Saúde Materno-Infantil da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) disse que “os casos de zika vão pressionar o debate sobre os direitos reprodutivos. A interrupção da gravidez, em qualquer situação, é uma decisão da mulher. (…) Uma jovem que engravidou sem planejamento e tem um filho com deficiência necessitará de cuidados especiais durante toda a vida. A sociedade tem de ajudar essa mulher, e ela precisa de apoio para ter suas decisões respeitadas”.

Uma pergunta que precisa ser feita é: Quem é esta sociedade? Onde ela mora? O que ela come? Quero dizer, é certo que a mãe de um filho que tenha qualquer tipo de deficiência demanda a assistência dos seus familiares e a ajuda daqueles que lhes são próximos ou se importam, mas não é este recurso que a diretora da OPAS está demandando. O que ela pretende é uma atuação direta do Estado para ou obrigar um conjunto de pessoas a um comportamento específico, ou mitigar o direito de outro grupo de indivíduos.

Ora, como já é de se imaginar, de tudo que foi dito pelos supostos especialistas, concorda-se com muito pouco. A vitória na descriminalização da prática de aborto de fetos anencéfalos tem, sim, tudo a ver com o esforço de descriminalização do aborto de fetos microcéfalos. Apesar de serem casos totalmente diversos, uma vez que a morte é certa em fetos anencéfalos, esta é apenas uma pequena possibilidade em casos de microcefalia. O elo sujo que os abortistas encontram está no dano cerebral e sua deficiência decorrente. Que, nos casos de microcefalia, demanda uma “forcinha” retórica das dificuldades sociais.

A verdadeira conexão subjacente nesse discurso é uma sociedade fundada na pior espécie de moral utilitarista. É inerente à natureza humana certa dose de utilitarismo na tomada de decisões racionais. Afastar a dor e buscar o prazer ou, maximizar os benefícios e minimizar os custos, são critérios para resolver questões morais, econômicas, sociais e políticas. Contudo, a eugenia leva este recurso a sua face mais perversa, aquela que desumaniza o indivíduo, tornando-o mero instrumento na concretização ou obstacularização daquele que toma a decisão.

Vamos às últimas consequências deste argumento, a saber: a conjunção entre deficiência originada por danos cerebrais e dificuldade cotidiana por falta de políticas públicas efetivas é autorizadora do aborto. Quais outros casos de aborto se compatibilizariam com esta ideia? Quantas outras anomalias e síndromes? Por que não os nascidos cegos, surdos ou mudos? Em dezenas de casos presenciamos a conjunção entre os dois elementos-base dos argumentos que aparentemente vão ao Supremo Tribunal Federal.

Seguindo este raciocínio da questão cerebral e impossibilidade de dar as condições adequadas ao futuro bebê, vemos estampada a real intenção daqueles que defenderão o aborto em casos de microcefalia: fazer avançar a Agenda do Aborto Livre. Aumentar as inseguranças dos indivíduos sobre os fetos com qualquer possibilidade de problemas cerebrais é caminhar na direção da defesa do aborto até a décima segunda semana da gestação. Como disse o “filósofo contemporâneo” Jean Wyllys: “a ciência diz que até a 12ª semana de gestação não há vida” (sic).

Para além, mesmo se tiramos o aborto da equação e olharmos estritamente para a questão da seleção genética, tirando os casos onde a escolha visa, exclusivamente, a cura de uma doença sem pôr em risco o feto, a eugenia viola a liberdade ética da pessoa manipulada. Os progenitores estão limitados ao espaço dentro do qual a futura pessoa poderia exercer sua liberdade de empreender seu projeto racional de vida.

Por último, a retórica mais ignorante de todas. O argumento “Ser proibido não faz com que não existam abortos. A mulher sem acesso ao aborto legal, independente da situação econômica, pode optar pelo aborto clandestino. Quem está na ponta mais pobre do sistema estará exposta a abortos inseguros, sim”. Primeiramente, todo aborto implica em risco, logo, em insegurança. Depois, a proibição de crimes quaisquer que sejam não resulta no fim da prática criminosa. Para acabar, a mulher que tem acesso ao aborto clandestino comete um crime “seguro” assim como um roubo seguido de morte de uma vítima indefesa. Em nada essa “segurança” legitima o homicídio intrauterino.

A vida não deve ser medida por um parâmetro econômico. Naquele embrião está contido um valor incomensurável, origem de todos os outros valores humanos, inclusive a Liberdade. Não é uma coisa, não é unha encravada, um câncer, um parasita ou algo do gênero. É alguém! Alguém perfeitamente desenvolvido para sua idade e com singularidade inscrita em seu DNA. Deste é a propriedade sobre si e a nós compete respeitar esta propriedade.

Saibam, leitores, que vendo essa movimentação do Anis – Instituto de Bioética (sic), só conseguimos lembrar da, já famosa neste blog, Planned Parenthood, aquele instituto fundado por uma ativista filiada à Ku Klux Klan, com objetivo de controlar o nascimento de negros e pobres, inspirado no infanticídio feminino asiático e que acreditava nas teorias eugênicas, vendo no aborto uma maneira de “limpar e purificar” a raça humana. Bem, Margaret Sanger, fundadora do Planned Parenthood, argumentava que os abortos deveriam ser feitos, pois deveria ser respeitado o direito de liberdade feminina, e que a mulher deveria interromper a concepção caso não pudesse dar as melhores condições de afeto ao filho. Soa familiar?

http://blog.comshalom.org/carmadelio/49506-49506

Distinguindo entre professores, educadores e intelectuais orgânicos

ALEXANDRE MAGNO FERNANDES MOREIRA

Na doutrina pedagógica brasileira, há praticamente um consenso no sentido de que os professores não apenas são intelectuais, mas principalmente têm o dever moral de serem intelectuais orgânicos.


Educador
é simplesmente aquela pessoa responsável pela educação de outrem. Sua relevantíssima função social consiste na transmissão seletiva da cultura às novas gerações. Nesse sentido, o educador determina quais manifestações culturais são relevantes o bastante para serem internalizadas pelos educandos. Não é exagero dizer que o conjunto de possibilidades de vida imagináveis por determinada geração foi determinado majoritariamente pelos educadores dessa geração.

Professor ou docente é a pessoa responsável pela educação, ou mais, estritamente, pela transmissão de conhecimentos a outras pessoas. A atividade do professor é o ensino, que pode ser realizado tanto em caráter informal (na educação domiciliar, por exemplo, o ensino é responsabilidade dos pais) quantoprofissionalmente, dentro de um ambiente escolar como integrante de uma profissão. Existem duas espécies fundamentais de professores:

  1. a) Os professores instrutores: são responsáveis apenas pela transmissão de conhecimentos. Não têm o poder de determinar o que, porque e para que transmitir, mas somente prestam um serviço tendo em vista os fins já determinados por outrem. Geralmente, consideram-se instrutores ou facilitadores aqueles que atuam na educação não formal (por exemplo, em cursos de línguas estrangeiras, de artes marciais e de mecânica);
  2. b) Os professores educadores: são simultaneamente educadores e instrutores, pois são responsáveis tanto por transmitir conhecimentos e habilidades como também por selecionar os bens culturais e as finalidades com que eles são transmitidos. O professor educador transmite ao educando a cultura filtrada de acordo com sua ideologia e visão de mundo. Indiscutivelmente, essa função pode ser exercida pelos pais ou responsáveis pelo menor. Mais controvertida é a possibilidade dessa função ser exercida pelos profissionais dos sistema escolar; de acordo com Armindo Moreira, há uma impossibilidade prática do exercício dessa função dentro do ambiente escolar:

Educar é criar hábitos e sentimentos que permitam ao educando adaptar-se ao meio social em que há de viver, para nele ser feliz sem impedir a felicidade dos outros.

Acontece que o professor não sabe e nem adivinha em que meio social vai viver seu aluno; daí que não vai prever os hábitos e sentimentos de que vai precisar o educando. E essa é a primeira razão pela qual o professor não pode educar.

Educar pelo exemplo não é processo que esteja ao alcance do professor. Um aluno, até seus 15 anos, terá tido, no mínimo, 20 professores. (…) Será que um ser humano pode ser educado por uma turma tão contrastante e contraditória em hábitos e convicções? É evidente que não! (…) Se os professores quiserem influir na formação moral e cívica de seus alunos, terão de o fazer com suas virtudes e com seus defeitos – e na consciência do educando ficará um feixe de contradições, um caos. E aqui está mais um motivo para que o professor não seja educador dos filhos alheios.

(…) só educa eficazmente quem ama o educando. (…) Exigir que o professor seja educador é exigir que ele ame o aluno. Ora, amor não é um sentimento que se exija para exercer uma profissão; menos ainda, em troca de um salário… E eis mais uma razão para não exigir que professor seja educador. [1]

O quadro a seguir sintetiza as categorias de professores:

  Atividade formal Atividade informal
Instrutores Professores inseridos no sistema escolar. Instrutores de cursos livres.
Educadores Professores e outros profissionais do sistema escolar. Pais e responsáveis por crianças e adolescentes.


Intelectual
, em sentido lato, é todo aquele que, dotado de cultura consideravelmente maior que a média da população, reflete sobre as realidades sociais e propõe soluções para os problemas dessa sociedade. A classe dos intelectuais é tradicionalmente denominada de intelligentsia. Na conhecida classificação das espécies de poder realizada por Max Weber, o poder intelectual (ao lado do militar e do político) tem destacada importância, uma vez que determina a ação alheia sem a necessidade da utilização da força física ou de meios financeiros.

Extremamente influente no Brasil é a distinção realizada por Antonio Gramsci entre intelectuais tradicionais eintelectuais orgânicos:

Daqui, a designação de intelectuais “orgânicos” distintos dos intelectuais tradicionais. Estes, para Gramsci, eram basicamente os intelectuais ainda presos a uma formação socioeconômica superada. Eram os intelectuais estagnados no mundo agrário do Sul da Itália. Eram o “clero”, “os funcionários”, “a casa militar”, “os acadêmicos” voltados a manter os camponeses atrelados a um status quo que não fazia mais sentido. (…)

(…)

“Orgânicos”, ao contrário, são os intelectuais que fazem parte de um organismo vivo e em expansão. Por isso, estão ao mesmo tempo conectados ao mundo do trabalho, às organizações políticas e culturais mais avançadas que o seu grupo social desenvolve para dirigir a sociedade. Ao fazer parte ativa dessa trama, os intelectuais “orgânicos” se interligam a um projeto global de sociedade e a um tipo de Estado capaz de operar a “conformação das massas no nível de produção” material e cultural exigido pela classe no poder. Então, são orgânicos os intelectuais que, além de especialistas na sua profissão, que os vincula profundamente ao modo de produção do seu tempo, elaboram uma concepção ético-política que os habilita a exercer funções culturais, educativas e organizativas para assegurar a hegemonia social e o domínio estatal da classe que representam. [2]

De acordo com essa classificação, os professores, responsáveis pela educação, seriam necessariamente intelectuais tradicionais ou orgânicos. Na doutrina pedagógica brasileira, há praticamente um consenso no sentido de que os professores não apenas são intelectuais, mas principalmente têm o dever moral de serem intelectuais orgânicos, ou em outros termos, intelectuais transformadores. [3] Maria Lúcia de Arruda Aranha, autora do mais influente manual de filosofia da educação no Brasil, afirma essa vinculação entre professor e intelectual orgânico de forma assaz contundente:

Ser um educador intelectual transformador é compreender que as escolas não são espaços neutros de mera instrução, mas carregados de pressupostos que representam as relações de poder vigentes e convicções pessoais nem sempre explicitadas. Imaginar que a escola seja um local apolítico, em que são transmitidos conhecimentos objetivos e apartados do mundo das injustiças sociais, é manter uma postura conservadora. Perigosamente conservadora, por contribuir com a manutenção do status quo. [4]

Notas:

[1] Professor não é educador. Cascavel: 2013, p. 10-11.

[2] SEMERARO, Giovanni. Intelectuais “orgânicos” em tempos de pós-modernidade. Cad. Cedes, Campinas, vol. 26, n. 70, p. 373-391, set./dez. 2006, p; 377-378.

[3] Cf. GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997, obra que deu origem ao termo.

[4] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação, p. 47. São Paulo: Moderna, 2006.

Da simpatia cínica à corrupção política

Sidney Silveira

O brasileiro tornou-se recordista mundial da indignação fingida. Somos a terra dos zumbis que se auto-hipnotizaram de tanto respirar o ar fétido das relações insinceras, da informalidade compulsória, da superficialidade transformada em convenção social, da tristeza por motivos fúteis, da dissipação mental com aparência de alegria, da intelectualidade de verniz, da falsa espontaneidade, dos abraços fáceis, dos sorrisos inconsequentes, do horror a normas e leis, do calor humano que esconde a mais terrível indiferença com relação ao próximo. É como se à nação inteira tivesse sido dada uma demoníaca beberagem, estranho elixir cujo efeito foi tornar as narinas brasileiras insensíveis ao fedor moral.
A estupidez generalizada por todos os estratos sociais, doença coletiva que nos acomete de maneira agônica, vai tornando a genuína amizade uma impossibilidade social. Entre nós, todo benfeitor parece fadado a beber o néctar da ingratidão, a constatar que, por trás da bonomia aparente, do presumível caráter pacífico, o brasileiro acabou por perder o vislumbre da verdadeira solidariedade. Em suma, na terra dos boas-praças, os vínculos interpessoais estão sempre à beira de romper-se: lânguidos, emotivos, hiper-sensíveis, patologicamente susceptíveis, somos um povo cheio de gente afetada por ninharias. Eis o motivo por que uma bobagem pode deflagrar reações desproporcionais, pôr fim a amizades de anos, ou melhor, a amizades fakes. Sim, porque uma amizade que acaba nunca começou — ou então começou torta, ou então começou unilateralmente, ou então começou pelos motivos errados.
Em contrapartida, coisas bastante sérias, atos gravíssimos, infrações éticas cabeludas, nada disso parece capaz de desfazer tais simulacros de amizade — entremeados de maledicência, de inveja, de disse-me-disse. Assim são as relações medíocres: conformadas ao que há de pior, chafurdadas porcinamente na lama, mas sem que ninguém reclame, devido a um tipo peculiar de osmose espiritual. Neste cenário, um sujeito injuria o outro, fala dele pelas costas (ou até pela frente), puxa-lhe o tapete no trabalho, mas tudo bem: ambos continuarão a manter a relação espúria da meia amizade, da empatia frívola medida por atos exteriores convencionais, como prendas de aniversário, telefonemas episódicos e saídas fortuitas para uma cervejinha.
Não é a troco de nada que o brasileiro costuma tomar qualquer objeção como afronta pessoal. Não é à toa que se sente mortalmente atingido ao ouvir pequenas verdades. Acostumado ao compadrio, ao multissecular jeitinho, aos favorecimentos mais ou menos ilícitos, a um horizonte de demagógica paz entre as pessoas, a não dizer o que pensa por medo de ser desagradável, ele virou um ser convenientemente híbrido. Trata-se de um anfíbio adaptável aos ambientes mais insalubres, amoldável às situações mais infames, em meio às quais costuma rir com desonra, tem por hábito escancarar os dentes com o ar mais malicioso do mundo. Sergio Buarque de Holanda, em meados do século passado, mostrou certo faro ao falar do “homem cordial” brasileiro, mas o seu diagnóstico carecia de profundidade filosófica e de base antropológica para poder chegar à clara visão das nossas deformidades.
Em nome da simpatia opressora que paira magicamente sobre as consciências, as pessoas sérias no Brasil são ridicularizadas nas empresas, nas escolas, nos clubes, nas esquinas. Aqui é vergonhoso ser ético, é socialmente condenável agir por princípios morais — pois o princípio geral, a norma consuetudinária de ação, sedimentada ao longo dos anos, é não ter princípio nenhum. Por isso as pessoas a quem o vulgo toma por inteligentes são em geral criaturas hipocritamente abertas a novidades as mais abstrusas. São também criaturas tendentes a seguir a boiada do momento, a opinião vigente difundida por engenheiros sociais. Hoje “somos todos Charlie”, amanhã “somos todos Amarildo”, depois de amanhã “não é apenas por vinte centavos”, e ao final de três dias não é bosta nenhuma — até surgir novo slogan deflagrador do frenesi, da histeria coletiva com ares de razoabilidade.
A nova geração de jovens belicosos, impermeáveis a qualquer opinião que não seja a do seu grupo, é efeito colateral do caráter indolente que dominou a nação por tanto tempo — conseqüência da afetividade desbragada na qual o Brasil foi aos poucos sucumbindo. A valentia desses pobres-diabos, maneira camuflada de auto-emulação, é uma forma lastimável de fraqueza ética. Na prática, valentões e covardões são antípodas complementares, pois entre a sinceridade orgulhosa e o comedimento hipócrita existe um liame secreto. Estes dois arquétipos humanos estão irmanados na hiper-sensibilidade psicótica que cresce a olhos vistos entre nós. 
Neste ponto, digamos com tristeza: o brasileiro médio nunca se caracterizou pela afeição à racionalidade, mas sim pela emotividade fluida. Por isso sempre oscilou entre a irreligião de matiz agnóstico e o sincretismo religioso, que é uma forma de superstição — e mesmo o catolicismo em Pindorama sempre tangenciou a nossa atávica inclinação à superficialidade e à afetação social de intenções altruístas. Ora, misturar tudo é não tomar partido de nada, uma maneira elegante de ser covarde, e a verdadeira religiosidade implica ir a águas profundas, viver os dilemas humanos com ânimo corajoso, tomar partido, autoconhecer-se, não ter medo de perder amigos por amor à verdade.
No presente momento, o país está submerso no maior lodaçal político da história da República. Esta desgraça não surgiu do nada, pois é fruto de alguns graves defeitos do Brasil como coletividade difundida no tempo e no espaço. Defeitos que o ex-presidente Lula parece encarnar com notável perfeição: malandro, indolente, esperto, caviloso, preguiçoso, susceptível, etc. Neste cenário, vemos surgir uma profilática ojeriza cívica a gente com o perfil do Sr. da Silva, gente que a população não quer mais ver no poder. Pela primeira vez em muitíssimas décadas, aflora uma indignação veraz da parte das pessoas de bem que não suportam mais o estado de coisas em que vivemos.
É a oportunidade histórica de começarmos a expurgar das instituições tipos humanos representativos do pior que há no caráter nacional — e constatamos isto sem otimismos irresponsáveis, mas apenas como uma luz tênue neste horizonte enevoado. 

Afinal de contas, se ao longo do tempo passamos do cinismo em forma de simpatia à corrupção política, será impossível fazermos da atual antipatia por nossos políticos o ponto de inflexão de uma mudança significativa?