A pergunta certa

Percival Puggina

É tamanho o descrédito dos partidos políticos que eles desistiram de proclamar suas virtudes. Ao contrário, dedicam-se a demonstrar que os outros chafurdam em ainda maiores vícios. Nesse contexto, nesse indiscutível contexto, fica imensamente favorecida a vida de quem está no poder. Ali, as facilidades voam em jatinhos militares devidamente decorados para os prazeres da vida civil. Ali, roda a ciranda em torno do Erário, que abre portas na hora certa para alegria dos folgazões. Ali há dinheiro, empregos, poder, honrarias, favores. E tudo isso, no tempo devido, vira mercadoria ou moeda eleitoral.

“E a oposição?”, indagará o leitor atento à relevância política deste ano de 2014. Ora, a oposição é aquele pequeno reduto onde só ficam os que não se deixaram seduzir pelo que de mais atraente existe nas tentações do poder. No Brasil destes anos constrangedores, só é oposição quem faz muita questão de sê-lo. O poder tem do bom e do melhor para todos os seus. A oposição é trincheira de poucos e mal apetrechados combatentes.

Quem acompanha a política nacional com interesse cívico sabe, também, que o PT muito pouco pode apresentar como resultado positivo de suas três administrações que não provenha de políticas que antes condenou e, posteriormente, adotou. Mas, convenhamos: isso não serve para estabelecer diferenças. Bem ao contrário. A estratégia oposicionista precisa ser outra. Para vencer o desequilíbrio estabelecido entre as forças do governo e as da oposição é preciso identificar e apontar ao juízo soberano dos eleitores certos abismos que as separam. A contribuição que trago nestas linhas é uma lista de pautas, de condutas e de políticas pelas quais esse rio de águas turvas chamado Partido dos Trabalhadores ganha corpo com seus afluentes pela margem esquerda e pela margem direita. Elas me levam ao que chamo de a pergunta certa: qual o partido brasileiro que se identifica com as seguintes políticas, condutas e pautas?

Marco regulatório da imprensa; marco civil da internet; PLC 122 (da “homofobia”) e seus disparates; imposição do “politicamente correto” e da novilíngua; confabulações do Foro de São Paulo; apoio e refúgio a terroristas (Cesar Battisti é apenas um dos casos); captura e devolução a Fidel dos boxeadores cubanos; apoio aos governos comunistas de Cuba, Venezuela e Bolívia; incondicional afeição a qualquer patife adversário do Ocidente; homenagens e nomes de ruas para líderes comunistas; memorial para Luiz Carlos Prestes; apoio explícito a companheiros condenados pela justiça por graves crimes; verdadeira fobia por presídios e órgãos de segurança, resultando em gravíssima instabilidade social; absoluta e incondicional dedicação aos direitos humanos dos bandidos; empenho em inibir a ação armada das instituições policiais; dedicação à causa do desarmamento dos cidadãos; recusa à redução da maioridade penal; criação do MST e apoio às suas truculentas invasões de propriedades rurais; apoio a invasões no meio urbano e a políticas que restringem o direito de propriedade; cobertura às estripulias imobiliárias dos quilombolas; avanços do Código Florestal contra o direito de propriedade; expansão das reservas indígenas sobre áreas de lavoura; mudança, para pior, do Estatuto do Índio; supressão de símbolos religiosos em locais públicos; lei da palmada; apoio à legalização do aborto; políticas de gênero; kit gay nas escolas; apoio à parada gay, à marcha das vadias e à marcha pela maconha; leis de cotas raciais; uso de livros didáticos para doutrinação ideológica; fim da lei de anistia e manipulação da História; aparelhamento da administração pública e dos órgãos de Estado pelos partidos do governo; e mais recentemente, defesa dos rolezinhos e suas perturbações em locais de comércio.

Examine bem a lista acima e depois me diga se não é urgente espantar, pela força do voto, esse mau agouro político que lança sortilégios sobre nossa sociedade e sobre a democracia brasileira.

http://www.puggina.org/

A primeira vítima: A Direita Brasileira

Prof Olavo de Carvalho

Quaisquer que venham a ser os desenvolvimentos da onda de protestos no Brasil, sua primeira vítima está ali, caída no chão para não se levantar nunca mais, e ninguém sequer se deu conta da sua presença imóvel e fria: é a “direita” brasileira.
 
Durante décadas, desde os tempos do governo militar, os partidos e movimentos de esquerda vieram construindo sistemática e obstinadamente o seu monopólio das mobilizações de massa, enquanto o que restava da “direita” , atropelado e intimidado por acontecimentos que escapavam à sua compreensão, ia se contentando cada vez mais com uma concorrência puramente eleitoral, tentando ciscar nas urnas umas migalhas do que ia perdendo nas ruas.
 
Não sei quantas vezes tentei explicar a esses imbecis que o eleitor se pronuncia anonimamente de quatro em quatro anos, ao passo que a militância organizada se faz ouvir quantas vezes bem deseje, todos os dias se o quiser, dando o tom da política nacional e impondo sua vontade até mesmo contra um eleitorado numericamente superior.
 
Mas a ideia de formar uma militância liberal e conservadora para disputar o espaço na praça pública lhes inspirava horror. Como iriam bater de frente na hegemonia do discurso “politicamente correto”, se este, àquela altura, já se havia impregnado tão fundo nos seus próprios cérebros que já não viam perspectiva senão imitá-lo e parasitá-lo, na ânsia de ludibriar o eleitor e conservar assim os seus cargos, ainda que ao preço de esvaziá-los de qualquer mensagem ideológica diferenciada e própria?
 
Era inútil tentar fazê-los ver que, com isso, se enredavam cada vez mais, voluntariamente, na “espiral do silêncio” (v. Elisabeth Noelle-Neumann, The Spiral of Silence, The University of Chicago Press, 1993), técnica de controle hegemônico em que uma das facções é levada sutilmente a abdicar da própria voz, deixando à inimiga o  privilégio de nomeá-la, defini-la e descrevê-la como bem entenda. 
 
Alguns eram até idiotas o bastante para se gabar de que faziam isso por esperteza, citando o preceito de Maquiavel: aderir ao adversário mais forte quando não se pode vencê-lo. Belo mestre escolheram. O autor doPríncipe foi um bocó em matéria de política prática, um fracassado que esteve sempre do lado perdedor.
 
Assim, foram se encolhendo, se atrofiando, se adaptando servilmente ao estado de coisas, até o ponto em que já não tinham outra esperança de sobrevivência política senão abrigar-se sob o guarda-chuva do próprio governo que nominalmente diziam combater.
 
Ao longo de todo esse tempo, ia crescendo a insatisfação popular com um partido que fomentava abertamente o banditismo assassino, cultivava a intimidade obscena com terroristas e narcotraficantes, tomava terras de produtores honestos para dá-las à militância apadrinhada e estéril, estrangulava a indústria mediante impostos, demolia a educação nacional ao ponto de fazer dela uma piada sinistra e, last not least, expandia a corrupção até consagrá-la como método usual de governo. 
 
Milhões de brasileiros frustrados, humilhados, viam claramente o abismo em que o país ia mergulhando. Essa massa de insatisfeitos, como o demonstravam as pesquisas, era acentuadamente cristã e conservadora. 
 
Em 2006 escrevi: “Com ou sem nome, a direita é 70 por cento dos brasileiros. Um programa político ostensivamente conservador teria portanto sucesso eleitoral garantido”. Mas, com obstinação suicida, a “direita” se recusava a assumir sua missão de porta-voz da maioria. Apostava tudo nas virtudes alquímicas da autocastração ideológica.
 
“Um pouco mais adiante – escrevi na mesma ocasião – , ela agravou mais ainda a sua situação, quando, após a revelação dos crimes do PT, perdeu a oportunidade de denunciar toda a trama comunista do Foro de São Paulo e, por covardia e comodismo, se limitou a críticas moralistas genéricas e sem conteúdo ideológico.”
 
Etanto tempo se passou, tão grande foi o vazio, que de recuo em recuo essa direita foi abrindo, que a própria esquerda acabou notando a necessidade de preenchê-lo, mesmo ao preço de sacrificar uma parte de si própria e, como sempre acontece nas revoluções, cortar as cabeças da primeira leva de revolucionários para encerrar a fase de “transição” e  saltar para as rupturas decisivas, as decisões sem retorno. Há mais de um ano o Foro de São Paulo vinha planejando esse salto, contando, para isso, com os recursos do próprio governo, somados aos da elite globalista fomentadora de “primaveras”.
 
Como não poderia deixar de ser em tais circunstâncias, o clamor da massa conservadora acaba se mesclando e se confundindo com os gritos histéricos do esquerdismo mais radical e insano, tudo agora instrumentalizado e canalizado pela única liderança ativa presente no cenário. 
 
Condensando simbolicamente essa absorção, a vaia despejada sobre a presidenta Dilma Rousseff no Estádio Nacional de Brasília, autêntica manifestação popular espontânea, já não se distingue da agitação planejada e subsidiada que acabou por utilizá-la, retroativamente, em proveito próprio.
 
Não se pode dizer que a esquerda tenha “roubado a voz”  da direita, pois a recebeu de presente. A opção pelo silêncio, o hábito reiterado da autocastração expulsou a direita nacional de um campo que lhe pertencia de direito e de fato, e terminou por matá-la. Ela não se levantará nunca mais. 
 
A insatisfação conservadora transmutou-se em baderna revolucionária e já não tem nem mesmo como reconhecer de volta o seu próprio rosto. Talvez algumas cabeças esquerdistas venham a rolar no curso do processo, mas as da direita já rolaram todas.

 

Entrevistas de emprego bizarras exigem respostas criativas

Em meio à crescente competitividade no mercado de trabalho, sobretudo nos países europeus afetados pela crise, recrutadores têm recorrido a perguntas cada vez mais curiosas para selecionar os melhores candidatos. Nessa busca, questões como “quantas moedas de um centavo cabem nesta sala?” têm se tornado mais comuns.

Confrontado com essa questão durante uma entrevista para uma vaga em um banco de investimentos em Londres, um candidato começou a fazer contas, e pouco depois anunciou sua “melhor aposta”.

Ele não conseguiu a vaga.

O que o banco queria era alguém que tivesse dado qualquer resposta, mas que tivesse confiança suficiente para convencer os mercados de que estava certo.

“Há muito mais competição por vagas, e os empregadores estão se tornando menos dispostos a correr riscos”, afirma Claire McCartney, do Chartered Institute of Personnel and Development (CIPD). “É muito difícil para as pessoas se destacarem se elas só respondem questões de rotina.”

Então, quais as questões que os empregadores têm feito atualmente e qual seu principal objetivo? A BBC pediu a opinião de dois especialistas no assunto:

Como você coloca uma girafa na geladeira?

Essa questão foi feita por um entrevistador de um banco de investimentos londrino a um candidato para operador de mercado.

“Essa pergunta está testando as habilidades criativas do candidato, incluindo como ele pode propor soluções para desafios difíceis e menos usuais. Candidatos devem verbalizar em voz alta a resposta em qual estão pensando”, diz Rusty Rueff, especialista em carreiras do site de empregos Glassdoor.

“Lembre-se de que o entrevistador está mais interessado em testar como você chega a uma resposta do que no seu conteúdo.”

Resposta sugerida: “Para chegar a esta reposta, você poderia me passar mais detalhes, por exemplo, sobre o tamanho da girafa? Qual o tamanho da geladeira? Nós estamos num país em que matar uma girafa é ilegal ou não?”.

Demonstrar que você precisa de mais fatos antes de tirar uma conclusão pode ser uma vantagem.

E assim você deveria continuar: “Se a girafa puder morrer, então encaixá-la dentro da geladeira tem mais a ver com a retirada do que está dentro da geladeira e com a utilização das ferramentas que tenho ao meu redor para garantir que ela caiba. Aliás, quais as ferramentas eu tenho para trabalhar com esse espaço?”.

Você preferiria lutar contra um pato que tem o tamanho de um cavalo, ou contra 100 cavalos do tamanho de patos?

Esta questão foi feita durante uma entrevista numa mineradora para uma vaga de operador do mercado de grãos e minérios em Londres.

“Ela parece estranha, mas é um jeito bem-humorado e criativo de testar sua dedução objetiva, para a qual se requere fazer e checar presunções mais realísticas e recomendar a melhor ação a ser tomada”, opina John Lees, autor do estudo Job Interviews: Top Answers to Tough Questions. “Sua escolha é bem menos importante do que o processo que revela sua resposta”.

Demonstre cada passo do que você está pensando: “Ok, eu reconheço que ambos podem me matar, mas eu começaria a pensar sobre o quão agressivo cada animal pode ser. Cavalos podem morder e chutar e mesmo que eles sejam pequenos, ao ser atacado por um grupo, não lhe dá espaço para escapar”.

De quantas maneiras eu posso retirar uma agulha do palheiro?

Essa questão foi feita por um entrevistador de um banco internacional para uma vaga de desenvolvedor de Java em Londres.

“É outro exemplo de um entrevistador testando a habilidade do candidato para resolver problemas de maneira criativa. Pense e verbalize abertamente o processo da resposta”, diz Rueff.

A resposta sugerida dele é: “O que nós podemos enxergar, podemos encontrar. Neste caso, por que não colorir o palheiro numa cor que facilitasse a visão da agulha?”, afirma Rueff.

Tentar diferenciar a cor prateada (da agulha) do dourado da palha é muito difícil, mas se eu pudesse tornar o palheiro na cor verde, azul ou roxa, o prateado da agulha ficaria muito mais óbvio. A questão aqui é jogar uma nova luz sobre o problema para encontrar uma nova solução”.

John Lees tem sugestões mais diretas: “Se a agulha é feita de metal, um imã poderia ser uma ideia. Ou eu poderia simplesmente queimar a palha, e a agulha resistiria”.

Se você ganhasse US$ 1 milhão, o que faria com o dinheiro?

A questão foi feita por um entrevistador numa empresa contábil de Birmingham, na Inglaterra.

Rusty Rueff explica: “Como essa questão foi feita numa importante empresa contábil, a pergunta provavalmente é mais voltada a testar as habilidades de planejamento do candidato no curto e no longo prazo.

Assim, os empregadores provavelmente gostariam de ter alguém que não simplesmente gastasse todo o dinheiro de uma só vez.

Para Rueff, uma boa resposta seria: “Ganhar US$ 1 milhão seria definitivamente muito bom, mas eu gostaria de pensar melhor sobre todas as minhas opções e também considerar como este dinheiro seria taxado antes de gastá-lo. É bom considerar como eu poderia investir o dinheiro, quanto eu poderia doar para caridade e também se eu poderia utilizar uma parte para celebrar. Mas, caso você esteja preocupado, eu continuaria a trabalhar”.

John Lees complementa: “Se você não puder pensar em nada, diga ‘boa pergunta. Qual a melhor resposta você ouviu hoje?’”.

Como você explicaria o Facebook para sua avó?

A pergunta foi feita durante uma entrevista numa empresa de software para uma vaga de executivo de vendas em Londres.

Para Rueff, “o entrevistador quer testar como o candidato pode explicar a ideia de uma forma mais relevante e significativa para o usuário final”.

A reposta sugerida dele é: “Primeiro, é importante deixá-lo ciente de que eu conheço bem meu público-alvo e pesquisei o público ao qual estou me dirigindo.”

“Minha avó usa internet, é familiarizada com websites, mas não sabe nada ainda sobre mídias sociais. Então, neste caso, eu diria: ‘Vó, eu sei que você adora manter contato com seus amigos e família e eu sei também que você adora usar a internet para encontrar novas informações. Existe um site chamado Facebook que permite a você tanto se conectar com seus amigos e familiares online, como seguir empresas e organizações que você gosta, para ficar sabendo de seus últimos lançamentos. Vó, você tem tempo para que lhe mostre isso?’”.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/06/130624_emprego_questoes_bizarras_gm.shtml

Dos Protestos e da História

Prof Carlos Ramalhete

 

Contexto histórico

 Estes protestos não surgem num vácuo; ao contrário, eles são parte integrante de uma onda de protestos que vêm varrendo todas as partes do planeta que foram dominadas, mais ou menos profundamente, pela dita “Civilização das Luzes”, ou “Modernidade”, uma forma de pensamento político antinatural que teve seu início prático há pouco mais de duzentos anos e agora chega a seu fim.

Resumindo muito, poderíamos dizer que a Modernidade é uma forma de absolutismo em que se considera que todo poder vem de um centro político. Em sua forma monárquica absolutista, era possível a um rei dizer “o Estado sou eu”. Cortando-se-lhe a cabeça, torna-se possível a um político dizer “todo o poder será exercido por mim em nome do Povo”. O significado prático de ambas as afirmações é o mesmo: o governante se percebe como o detentor de todo o poder, como a fonte do poder dos pais sobre os filhos (daí a facilidade do Estado moderno em tirar de alguém a “guarda” dos próprios filhos, por exemplo), dos professores sobre os alunos, dos empresários sobre seus funcionários, etc.

Esta forma de absolutismo, para sua implantação perfeita, demanda necessariamente que enorme parcela da população seja afastada por algum meio; o meio mais tradicional, empregado na França revolucionária, no nazi-fascismo, no comunismo e na expansão americana, foi o genocídio (respectivamente da nobreza, dos judeus, da burguesia e da população nativa e mexicana). A forma mitigada deste afastamento, empregada nos países de Modernidade do tipo capitalista, é o encarceramento maciço do lumpesinato urbano.

Tendo surgido na Europa, a penetração mais profunda desta ilusão antinatural sobre o funcionamento da sociedade ocorreu lá. No século passado, tivemos o auge da Modernidade, em que se digladiaram em território europeu suas formas mais puras, a fascista e a comunista.

Da Europa, contudo, esta ilusão antinatural espalhou-se pelo mundo. Os Estados Unidos da América – nas palavras de Chesterton, que cito de memória, “o único país erigido sobre uma ideia, não uma nacionalidade” – a Modernidade ganhou uma outra forma, talvez ainda mais pura por não ter sido construída sobre as ruínas da ordem social anterior, sim sobre a tábula rasa obtida com o genocídio da população nativa e – quando da invasão do norte do México, criando o atual sudoeste americano – católica mexicana.

Em outros lugares, contudo, incluindo o Brasil, a Modernidade não penetrou tão profundamente. Foi criada, sim, uma crosta superficial de Modernidade, com, por exemplo, uma legislação que tem a impessoalidade como valor, mantendo sempre, contudo, a população sua forma personalista e não Moderna de lidar com a realidade. Temos, assim, um Estado que se pretende Moderno, mas é uma Modernidade “pra inglês ver”. O mesmo político que se diz paladino da impessoalidade administrativa emprega toda a família; o mesmo cidadão de classe média que reclama da “corrupção” do político tenta – e frequentemente consegue – ser tratado de forma diferenciada pelo guarda de trânsito, pelo apelo a autoridade de amigos ou pela gorjeta.

Outro país em que a Modernidade não passa de uma crosta superficial é a Turquia, em que Attatürk tentou criar um país moderno à força no século passado, com sucesso apenas parcial.

É interessante perceber a semelhança, em muitos aspectos, da forma de eclosão dos protestos turcos e brasileiros, com um tema inicial irrelevante (um aumento de passagem de ônibus urbano aqui e a derrubada de algumas árvores para a construção de um centro comercial lá) servindo para desencadear uma onda de protestos absolutamente desproporcional à suposta causa. Em ambos os casos, o que se teve foi simplesmente – como observei no texto de minha coluna já citada – a eclosão abrupta de um sentimento de exasperação coletiva.

Nos países em que a Modernidade foi introjetada pela população, em que o modo de pensar da população é já completamente Moderno, contudo, os protestos tiveram outras formas. Nos EUA, ao niilismo das “ocupações” de Wall Street e outros lugares somou-se o romantismo individualista do Tea Party: formas modernas, ambas, de expressão de uma exasperação coletiva vaga demais para ser compreendida, mormente quando só se pensa em categorias modernas.

Da Europa, onde é mais profunda a percepção da participação política como ato coletivo, poderíamos citar as imensas manifestações com mais de um milhão de participantes da “Manif Pour Tous” francesa, que se levantou contra a imposição legal do “casamento gay”.

 O espírito do tempo

 Qual é o ponto comum de todas estas manifestações multitudinárias, de todos estes levantes, ocorrendo onde ocorreu a Modernidade? Qual é o “espírito do tempo”, o zeitgeist que as perpassa?

Por incrível que pareça, uma das afirmações mais próximas dele foi feita, no Brasil, pelo Senador Cristovam Buarque, mais conhecido por seu costumeiro utopismo tão delirante quanto bem intencionado. Propôs o Senador a extinção de todos os partidos políticos (o que, aliás, venho propondo há anos, por ser o eleitor brasileiro personalista).

Esta extinção, por sua vez, poderia ser expressa de outra maneira, na busca de uma definição essencial deste zeitgeist, no afã de isolar mais precisamente o ponto histórico em que estamos. Poderíamos apontar não mais para a frase do Senador, mas para o bordão que encontramos não só nas manifestações multitudinárias, mas em manifestações políticas individuais há já alguns meses: “não me representa”.

As manifestações coletivas são a soma de centenas de milhares de manifestações individuais de exasperação com a noção moderna e antinatural de centralização do poder. Daí o repúdio aos partidos políticos (que pretendem “representar” – ou seja, tomar para si o poder de – a população), aos homens e mulheres políticos, aos “líderes” autodenominados, etc.

Os atores políticos ligados às instituições soçobrantes, evidentemente, estão em pânico. O Movimento Passe Livre, grupelho de extrema-esquerda caricata que prega a estatização (leia-se “hipercentralização Moderna”) dos transportes públicos e que inadvertidamente serviu de estopim para os protestos, está pulando para cima e para baixo como uma criança mimada em busca de atenção. Os articulistas ligados às instituições estagnadas sob ataque tentam, no seu limitadíssimo horizonte conceitual, atribuir a um “fascismo” e a uma “extrema-direita” – mais assemelhados à proverbial cabeça de bacalhau que a um ator político real, na cena brasileira – a demanda multitudinária e ao mesmo tempo pessoal de devolução do poder ao indivíduo, expressa na frase “não me representa”.

Alguns chegam a incentivar vandalismos, talvez como forma de buscar um aumento da desordem que possa permita uma tentativa de implantação de um governo ditatorial (ou seja, hipermoderno). Em suma, querem voltar ao século passado. Estão no Titanic que afunda, bradando seus privilégios de ocupantes da primeira classe.

O momento histórico, contudo, não lhes é em nada propício. A tendência é a progressiva irrelevância das instituições excessivamente centralizadoras, com o crescimento das instituições naturais de autoridade (associações de bairro, grupos de ação político-cívica, etc.). Como em todo fim de sistema politico-civilizacional, a reação consiste em tentar mais do mesmo; podemos, por isto, esperar que se faça passar legislação mais centralizadora, etc. Isto, contudo, não tem como ter efeito real; esta legislação tende a ser ignorado, tanto mais quanto mais distante da realidade da população ela for. Trataremos disto com mais vagar mais abaixo neste mesmo texto.

 Os atores

 O principal ator político do momento é o jovem de classe média tradicional, fruto de uma educação ineficiente dominada pelo marxismo, somada a hábitos de consumo de massa do capitalismo tardio (desde seriados americanos como forma de “cultura” até o consumismo em senso mais estrito, com roupas e celulares de grife), com tudo isso servindo de cobertura para um bolo cuja massa é da mais pura cultura patriarcal tradicional, que o faz – apesar de seus apelos à modernidade – não pensar duas vezes antes de demandar privilégios de estamento (“você sabe com quem está falando?”, etc.). Ele compõe o grosso das manifestações e dá vazão verbal ao zeitgeist que, no entanto, anima também a outros atores. Por mais que a Globo tente esconder este fato, a composição socioeconômica e cultural das manifestações as torna muito próximas das Marchas da Família com Deus pela Liberdade de 1964.

Como ator secundário, já tradicional no casting brasileiro, a população de classe média baixa. Devido à inserção de enorme quantidade de jovens oriundos deste estamento no antes limitado quadro dos portadores de símbolos de pertença à classe média tradicional (principalmente carro, faculdade e eletrodomésticos), surgiu em cena uma força conservadora, insegura de sua pertença à classe privilegiada mas apegada a valores tradicionais e percebendo-se como em ascensão social por mérito próprio. Estes somam-se às manifestações de maneira mais tímida, por não terem tido aulas tão eficientes quanto as da classe média tradicional de “como é glorioso manifestar-se contra o poder” no ensino fundamental e médio. Também estão imbuídos deste zeitgeist anticentralizador, talvez até em dose maior que seus congêneres da classe média tradicional, devido à possibilidade de somar a participação política direta ao rol de símbolos de pertença à classe média que já ostentam.

Finalmente, a voz do atraso: os grupelhos (ou, se preferirem a linguagem deles, os “coletivos”) perdidos em algum momento entre o século retrasado e o século passado, ainda repletos de fantasias de construir no Brasil o que jamais conseguiram construir alhures, mesmo tendo matado cem milhões de pessoas na tentativa. Os militantes das formas exacerbadas de Modernidade (praticamente todos comunistas; há em São Paulo uma presença minúscula e caricata de militantes de um pseudo-fascismo tupiniquim, que não se sustenta ideologicamente, e só. São fascistas de butique, como há punks de butique) estão desesperados ao ver escorrer entre os dedos o que parecia tão próximo do sucesso, com a tomada dos governos (logo do poder, na visão simplista da maioria, ainda que alguns – como Freibetto – tenham discernido não ser o caso) pelo Foro de São Paulo.

Estes lutam ingloriamente contra o zeitgeist, tentando ou bem “domar” as manifestações, fazendo delas os costumeiros poleiros para políticos, adornando-as de bandeiras vermelhas e promessas vazias, ou bem transformá-las em desordem social aberta, através de atos de vandalismo que possam fazer com que se justifique uma (na visão deles) possível radicalização da autoridade centralizadora governamental, implantando à força uma ditadura comunista.

Como a mídia está umbilicalmente ligada ao governo, por ser dependente de anúncios milionários e estar povoada por jornalistas militantes destas formas exacerbadas de Modernidade, são apenas estes que têm voz nela; para a mídia, é imprescindível tentar reduzir a demanda das manifestações a qualquer coisa diferente de uma negação da centralização autoritária Moderna: daí a ênfase em besteiras irrelevantes, que levam a bola de volta ao campo da política tradicional, como se tudo isso fosse devido a passagens de ônibus, PECs e outras “demandas”.

Conspicuamente ausentes estão os conservadores, talvez por medo do desconhecido, talvez pelas infelizes declarações de alguns maîtres-à-penser, que não conseguiram ver além do quebra-quebra que está sendo incentivado pela extrema-esquerda numa tentativa frustra de esvaziar o momento histórico.

Nos lugares em que professores e outros intelectuais anticomunistas procuraram agir no sentido de influenciar as manifestações, a extrema-esquerda foi prontamente alijada dos protestos. Os lugares em que isto não ocorreu, o processo de “conservadorização” é mais lento, ainda que inexorável devido tanto ao fato de a maioria da população ser conservadora quando à incoerência entre o zeitgeist que as anima e as ideologias centralizadoras Modernas.

 Para onde isto tudo vai?

 A hipótese mais assustadora, usada como bicho-papão por alguns líderes para afastar os jovens engajados das manifestação, seria uma ditadura comunista. Isto é simplesmente impossível. Para implantar uma ditadura totalitária (ao contrário de uma ditadura meramente autoritária), como forçosamente uma ditadura comunista deve ser, é necessária a existência de uma massa crítica de aderentes ideológicos suficientemente grande para que se os possa uniformizar e armar para controle da população. Isto, no Brasil, é simplesmente impossível devido aos mecanismos culturais de sobrevivência brasileiros, que levam a um apoio “pra inglês ver” sem compromisso real. Em outras palavras, não há gente suficiente para fazer uma KGB ou Gestapo aqui, graças a Deus. O Brasil não é uma ilhota ao largo de Miami, da qual pudesse fugir a parcela da população que se faria necessário assassinar para ter sucesso numa revolução. Sem ter para onde ou como expulsar os indesejáveis e sem ter como levantar forças bastantes para mata-los, não há como fazer uma ditadura totalitária.

A segunda hipótese mais assustadora é uma ditadura autoritária de cunho populista, talvez alçada ao poder com participação das Forças Armadas. Há alguns candidatos a montar neste cavalo branco, do próprio Lula a Joaquim Barbosa, passando por outros menos votados, como Bolsonaro. Esta é uma hipótese real, não mais nem menos provável que as duas seguintes; o fiel da balança, devido à ausência conspícua de conservadores dispostos a agir dentro das manifestações, acaba sendo a capacidade destrutiva dos vândalos de extrema-esquerda e seus idiotas úteis niilistas.

A terceira alternativa seria a manutenção de Dilma na Presidência com apoio militar, fazendo dela, na prática, refém das Forças Armadas e desviando o projeto de poder da extrema-esquerda para o igualmente centralizador projeto tecnocrático dos militares. Na melhor das hipóteses, isto levaria a um cenário interessantíssimo na próxima eleição presidencial.

A quarta alternativa seria a tomada do poder pelos militares, que provavelmente levaria à antecipação das eleições presidenciais – ou talvez de todas as eleições, forçando uma recomposição do quadro político brasileiro – para evitar que as Forças Armadas se tornem alvo da continuação dos protestos. Afinal, a “educação” formal da juventude que ora protesta sempre demonizou as Forças Armadas.

 Em todo caso, cumpre lembrar que a cultura brasileira tem mecanismos de resolução de conflito ímpares. Basta perceber a diferença entre o ocorrido nos demais países latino-americanos e o ocorrido aqui nas proxy wars entre EUA e URSS dos anos sessenta e setenta: enquanto os países de nosso entorno, com populações comparativamente ínfimas, tiveram genocídios chegando às centenas de milhares de pessoas, o Brasil – com uma evolução do quadro político em tudo semelhante, dos anos sessenta até os dias atuais – não chegou a quinhentas vítimas de ambos os lados. Podemos e devemos contar com estes mecanismos, com a “turma do deixa disso”, com resoluções mais pacíficas que o que se poderia esperar da virulência das opiniões em curso.

O que há de acontecer ao longo das próximas décadas, contudo, é uma diminuição desta centralização excessiva, desta forma antinatural de percepção e ação do poder trazida pela Modernidade. Em termos práticos, isto significa que grande parcela do poder voltará a seus donos legítimos, com um aumento no protagonismo político-cívico das instâncias inferiores e uma diminuição proporcional da importância dos partidos ideológicos (que, se perdurarem, será na forma de fósseis comunistas inócuos ou – como já temos – gangues de venda e redistribuição de poder patrimonialista).

A ação cívica recomendável e afinada com o momento histórica, a meu ver, é assim a ação de organização destes protagonismos político-cívicos: associações de moradores, de atletas, etc. Se não há esgoto, que se faça um mutirão para construí-lo ao invés de pedir a um político. O poder não é dele, mas da população. Deve-se buscar a irrelevância cada vez maior das instâncias políticas mais afastadas da população, fazendo com que a associação de moradores tenha mais poder que o prefeito, que tenha mais poder que o governador, que tenha mais poder que o presidente. Assim é a ordem natural, assim sempre foram as coisas até a Modernidade chegar e inverter tudo de forma antinatural, levando, em seu auge, aos horrendos genocídios do século passado.

Em suma: acabaram os cheques em branco para políticos. Devemos agir, não pedir, fazer, não eleger.

E que Deus ajude o Brasil.

https://www.facebook.com/notes/carlos-ramalhete/dos-protestos-e-da-história/488087031268909

Jornalista Reinaldo Azevedo solta o verbo…

 

ATENÇÃO! PT VAI ENTRAR DE CABEÇA NA PANTOMIMA! APARELHOS DO PARTIDO DOS TRABALHADORES E ESTUDANTES ESTÃO LIBERADOS PARA IR ÀS RUAS NA SEGUNDA: A ORDEM É NÃO TOCAR NO VALOR DA TARIFA E SE MANIFESTAR CONTRA A PM E CONTRA ALCKMIN. MILHÕES DE PESSOAS SÃO VÍTIMAS DE UMA TRAMOIA ELEITORAL

 

Isto é uma informação, não uma interpretação. O PT liberou a tigrada para ir às ruas na segunda-feira. Os sindicatos de trabalhadores e estudantes dominados pelo partido estão sendo convocados a participar do que pretendem que seja uma megamanifestação, aí não mais contra a tarifa de ônibus, mas contra a Polícia Militar e contra o governo de São Paulo. A ordem, aliás, é focar o menos possível no valor da passagem de ônibus. Por óbvio, a questão pode arranhar a imagem de Fernando Haddad. Os petistas estão vendo na questão uma chance de ouro de realizar uma dupla operação:
a: diluir o mal-estar com a elevação da tarifa;
b: mudar definitivamente o sentido dos protestos.

O movimento é organizado, veio de cima. O próprio Haddad saiu na frente. Foi a primeira autoridade petista, já na noite de ontem, a criticar “a violência” da polícia. Ele o fez depois de conversar com a cúpula partidária. Gilberto Carvalho — que comanda a pasta que, na prática, “organiza” os índios — está sabendo de tudo. É ele quem faz a interlocução com os movimentos sociais.

Os petistas tentam “assumir a liderança” do movimento em São Paulo, que consideram perigosamente fora do controle. Ao assumi-la, por intermédio dos movimentos sociais e lhe dar uma direção, pretendem mudar o eixo dos protestos. Observem que José Eduardo Cardozo também atacou a polícia. Ideli Salvatti, ministra das Relações Institucionais, defendeu “o direito à manifestação”, como se alguém estivesse a contestá-lo.

PCdoB
O PCdoB também está chamando a sua turma. Membros da Juventude Socialista já andaram aparecendo nos protestos. Na segunda, haverá uma espécie de adesão formal. Não se esqueçam de que o partido tem a vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão.

Pusilanimidade
Haddad, diga-se, convidou o Movimento Passe Livre para um papinho. Quer ouvir as suas propostas. A menos que o grupo tenha mudado a agenda, sei qual é: transporte gratuito para todos. A turma tem uma máxima bucéfala: se é público, por que é pago? Entenderam? Eles fingem não entender que tudo, rigorosamente tudo, o que é é público é… pago! Alguém sempre arca com os custos.

É um caso evidente de pusilanimidade política. Ao receber pessoalmente os representantes do Passe Livre, o prefeito estará endossando seus métodos: depredação, quebra-quebra, coquetel molotov, porrada.

É preciso deixar claro: ao aderir aos protestos e tentar mudar a sua natureza, evidencia-se o caráter político-eleitoral dos protestos. O PT e o PCdoB enxergaram no episódio uma janela de oportunidades e decidiram tomar a rédea dos protestos, tirando-o da condução da turma do Passe Livre, PSOL e PCO. Ainda que, num dado momento, todos se entendam, têm lá suas diferenças de estratégia.

Violência
Os petistas graúdos passaram a considerar também que é fundamental que não haja violência na segunda-feira. Na fórmula de um deles, a manifestação só será bem-sucedida se for grande e pacífica e se concentrar suas palavras de ordem em favor da liberdade de expressão (como se ela estivesse sob ameaça), contra a violência policial e contra o governo Alckmin.

É assim que o PT faz política. É assim que sempre fez. E assim fará enquanto existir. Não é uma questão de escolha, mas de natureza. Podem contar: na segunda, os petistas param São Paulo. E tentarão provar que é para o bem dos paulistanos.

Para encerrar
Ao saber que jornalistas haviam sido feridos nos confrontos dessa quinta, um petista de alto coturno quase soltou rojão. Anteviu uma reação corporativista, como de fato aconteceu, e comemorou: “Agora eles [os jornalistas] vêm pro nosso lado!”.  Como se a maioria já não tivesse ido…

Texto publicado às 20h12 desta sexta

Por Reinaldo Azevedo

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/atencao-pt-vai-entrar-de-cabeca-na-pantomima-aparelhos-do-partido-de-trabalhadores-e-estudantes-estao-liberados-para-ir-as-ruas-na-segunda-a-ordem-e-nao-tocar-no-valor-da-tarifa-e-se-manifestar-con/