Discriminação dentro de ônibus desperta debate sobre intolerância religiosa

Alexandre L'Omi L'Odò. Foto: Rafael Martins/DP

Adaíra Sene

Ele é amaldiçoado, macumbeiro, catimbozeiro, dessas religiões, víbora do inferno, illuminati do satanás. Não faltaram termos pejorativos para um grupo de evangélicos queimar Alexandre L’Omi L’Odò, sacerdote da jurema, na inquisição da pós-modernidade. E nos novos tempos, o julgamento vem em cliques. As imagens das ofensas caíram nas redes sociais e causaram inquietação. Se nos séculos passados as chamas ardiam sob alegação de combate à heresia, no último dia 09, as palavras incendiaram com o intuito único de exterminar o diferente. Em um país miscigenado, foi no terminal de ônibus de Xambá – assim denominado em respeito à Nação Xambá ainda viva em Olinda – que um seguidor da religião de matriz africana e indígena se viu coagido por suas crenças. A intolerância vivida por Alexandre – produtor cultural, fundador do Quilombola Cultural Malunguinho e estudante de mestrado em Ciências da Religião – agora é investigada pelo Ministério Público de Pernambuco.

“A maioria do nosso povo abaixa a cabeça e guarda para si quando nos agridem. Eles usam adjetivos para desqualificar nossa tradição, sacerdócio e nossos símbolos religiosos. Eu não saí de casa para brigar com ninguém, mas reagi. Tive que enfrentar isso como os velhos guerreiros malunguinhos enfrentavam”, desabafou.

No dia 09, por volta das 20h, ele entrou num ônibus que fazia a linha TI Xambá/Encruzilhada, no Terminal de Xambá, acompanhado do afilhado de jurema Henrique Falcão. Os dois seguiam para a casa de axé Ilé Iyemojá Ògúnté, em Água Fria. Mas, segundo o juremeiro, ao entrar no ônibus, um vendedor de açaí começou uma pregação e instigou os evangélicos que estavam no coletivo contra ele. Teria dito, inclusive, que sabia da existência de um grande terreiro de “macumba” por trás da estação, o Terreiro Xambá, comandado por “um negão pai de chiqueiro”, citando o babalorixá Ivo de Xambá. 

“Ele falou do meu povo e de um sacerdote. Fui diretamente atingido e reagi. Ainda me chamou para brigar dizendo que o demônio não conseguiria atingir um filho de Deus. Sou pacifista, mas não abaixo minha cabeça. Rebati com argumentos convincentes sobre o desrespeito dele até mesmo aos princípios da religião que segue, que diz que não devemos julgar. Algumas pessoas concordaram, mas outras se manifestaram até com o Espírito Santo contra mim”, detalhou. A confusão foi tamanha que até mesmo o vigilante do Terminal Integrado foi até o ônibus. “Seguranças e fiscais da estação mandaram que nos retirássemos. Óbvio que também os rebati dizendo que paguei a passagem e que eu era a pessoa que estava sendo violentada”. Segundo Alexandre, a discussão só terminou quando ele chegou ao seu destino.

Indignado, o juremeiro publicou um vídeo que fez das ofensas no Facebook no último 12. A postagem alcançou grande repercussão e – até a noite desta sexta-feira – tinha mais de 500 compartilhamentos. Alexandre L’Omi L’Odò, então, levou a denúncia para o Ministério Público. O caso foi registrado nessa quinta-feira. O MPPE, por meio da Promotoria de Justiça de Transporte, colheu o depoimento dele e vai instaurar um procedimento investigativo. No prazo de 30 dias, o caso será analisado para que sejam tomadas as medidas cabíveis. O promotor de Justiça Humberto Graça foi designado para a ocorrência.

Regulamentação do Grande Recife
De acordo com o anexo 15 do Regulamento do Sistema de Transporte Público de Passageiros da Região Metropolitana do Recife (STPP/RMR), não é permitida a atividade de vendedores ambulantes dentro dos veículos, assim como é proibido qualquer usuário de falar em voz alta (seja para vender, anunciar, pedir, pregar religiões, etc) de modo que perturbe o sossego dos demais usuários.

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2016/06/17/interna_vidaurbana,651021/discriminacao-dentro-de-onibus-desperta-debate-sobre-intolerancia-reli.shtml

Somos Brasileiros ou Brasilianos?

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Stephen Kanitz

Por 500 anos mentiram para nós.

Esconderam um dado muito importante sobre o Brasil.

Disseram-nos que éramos brasileiros.

Que éramos cidadãos brasileiros, que deveríamos ajudar os outros, pagando impostos sem reclamar nem esperar muito em troca.

Esconderam todo esse tempo o fato de que o termo brasileiro não é sinônimo de cidadania, e sim o nome de uma profissão.

Brasileiro rima com padeiro, pedreiro, ferreiro.

Brasileiro era a profissão daqueles portugueses que viajavam para o Brasil, ficavam alguns meses e voltavam com ouro, prata e pau-brasil, tiravam tudo o que podiam, sem nada deixar em troca. 

Brasileiros não vêem o Brasil como uma nação, mas uma terra a ser explorada, o mais rápido possível. Investir no país é considerado uma burrice.

Constituir uma família e mantê-la saudável, um atraso de vida.

São esses brasileiros que viraram os bandidos e salafrários de hoje, que sonham com uma boquinha pública ou privada, que só querem tirar vantagem em tudo.

Só que você, caro leitor, é um brasiliano

Brasiliano rima com italiano, indiano, australiano

Brasiliano não é profissão, mas uma declaração de cidadania. 

Rima com americano, puritano, aqueles abnegados que cruzaram o Atlântico para criar um mundo melhor, uma família, uma nova nação.

Que vieram plantar e tentar colher os frutos de seu trabalho, sempre dando algo em troca pelo que receberam dos outros.

Gente que veio para ficar, criar uma comunidade, um lar.

Que investiu em escolas e educação para os filhos e produziu para consumo interno.

Foram os brasilianos que fizeram esta nação, em que se incluem índios, negros e milhões de imigrantes italianos, espanhóis, japoneses, portugueses, poloneses e alemães que criaram raízes neste país. 

Brasilianos
 investem na Bolsa de Valores de São Paulo. 

Brasileiros investem em offshores nas Ilhas Cayman ou vivem seis meses por ano na Inglaterra para não pagar impostos no Brasil. 

Brasileiros adoram o livro O Ócio Criativo, de Domenico de Masi, enquanto os brasilianos não encontram livro algum com o título O Trabalho Produtivo, algo preocupante.

Como dizia o ministro Delfim Netto, o sonho de todo brasileiro é mamar nas tetas de alguém.

Quem está destruindo lentamente este país são os brasileiros, algo que você, leitor, havia muito tempo já desconfiava.

Infelizmente, o IBGE não pesquisa a atual proporção entre brasileiros e brasilianos neste país.

São as duas classes verdadeiramente importantes para entender o Brasil.

Mais importante seria saber qual delas está aumentando e qual está diminuindo rapidamente, uma informação anual e estratégica para prevermos o futuro crescimento do país. 

Não vou fazer estimativa, deixarei o leitor fazê-la com base nas próprias observações, para sabermos se haverá crescimento ou somente a continuação do “conflito distributivo” deste país.

O eterno conflito entre aqueles que se preocupam com a geração de empregos e aqueles que só pensam na distribuição da renda.

Os brasilianos desta terra não têm uma Constituição, que ainda é negada a uma parte importante da população.

Uma Constituição feita pelos verdadeiros cidadãos, que estimule o trabalho, o investimento, a família, a responsabilidade social, a geração de renda, e não somente sua distribuição.

Uma Constituição de obrigações, como a de construir um futuro, e não somente de direitos, de quem quer apenas garantir o seu.

Precisamos escrever e reescrever nossos livros de história.

Em vez de retratarmos o que os brasileiros(não) fizeram, precisamos retratar os belos exemplos e contribuições do povo brasiliano para esta terra.

Um livro sobre a História Brasiliana, da qual teríamos muito que nos orgulhar. Vamos começar 2008 tentando ser mais brasilianos e menos brasileiros

São 500 anos de cultura brasileira que precisamos mudar, a começar pela nossa própria identidade, pelo nosso próprio nome, pela nossa própria definição. 

https://kanitz.com.br/somos-brasileiros-ou-brasilianos/

A relação entre a Grosseria e o Whatsapp

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Miriam Diez Bosch

O professor e jornalista Fernando Martínez Vallvey é professor de Comunicação na Pontifícia Universidade de Salamanca, Espanha (www.upsa.es), e especialista em jornalismo digital. Ele nos fala sobre a relação entre grosseria e este novo elemento em nossas vidas chamado WhatsApp.

Vício do instantâneo?

A comunicação é uma parte muito importante da vida das pessoas: é uma necessidade vital. Precisamos nos comunicar com outras pessoas para fins práticos, como trabalhar, fazer lição de casa ou brincar com outras pessoas; também é essencial para lidar com assuntos imateriais, espirituais ou transcendentes como o amor, a arte etc. A comunicação nos permite dar aos outros sem perder; a comunicação com os outros nos ajuda a resolver problemas, torna a nossa vida mais fácil e nos proporciona companheirismo. A comunicação é um dom, e uma maneira de nos completar como indivíduos, complementando nossas personalidades, em nossas vidas do dia a dia.

Com base nesse fato, podemos ver que qualquer forma de comunicação que atenda constantemente a essas necessidades será bem recebida pela maioria das pessoas. É fantástico saber a localização de uma pessoa que vamos buscar; lembrar alguém de uma tarefa que eles têm que fazer; ou enviar uma mensagem romântica – e tudo isso facilmente, rapidamente e de graça.

Isso atinge o status de uma obsessão quando você se sente vazio e como se estivesse perdendo algo se já faz algum tempo desde que você recebeu uma notificação em seu telefone. É quando a comunicação, que é uma coisa boa, torna-se perigosa. Nos sentimos vazios. Poderíamos comparar isso com comer compulsivamente. Comer é bom: precisamos comer para ter energia para fazer o trabalho físico e viver; mas se comemos mais do que precisamos… É quando os problemas começam. Cada pessoa deve buscar o equilíbrio entre seu bem-estar interior (sua capacidade de se sentir em paz consigo mesmo) e sua relação com os outros. Por que essa forma de comunicação é viciante? Porque não custa nada e dá muito.

Constantemente usando o WhatsApp e as redes sociais à mesa, no transporte público, no cinema… Está tornando as pessoas grosseiras?

É verdade que há ocasiões em que estamos dando tanta atenção aos nossos telefones celulares que nem sequer estamos conscientes que estamos sendo grosseiros; por exemplo, podemos não pedir perdão quando incomodamos alguém que está sentado ao nosso lado no transporte público, ou talvez não saibamos cumprimentar alguém que conhecemos quando passamos na rua. É mais grave quando a forma como nos comunicamos usando o nosso telefone é um incômodo para outras pessoas. Claro, o que essa obsessão faz é nos tornar menos atentos ao que acontece à nossa volta. Perdemos o contato com o que está acontecendo na frente de nós, porque estamos focados no que está acontecendo longe. Isto tem algumas de suas piores consequências quando, por exemplo, uma refeição compartilhada é constantemente interrompida e a conversa entre as pessoas ao redor da mesa é impedida porque alguém está constantemente conversando com outras pessoas que estão fisicamente ausentes. Outra forma de grosseria se manifesta nas salas de aula, quando os alunos nunca param de olhar para suas telas, e não prestam atenção ao que seu professor ou colega de turma está dizendo.

WhatsApp e escrita: estamos indo de mal a pior?

Comunicação por WhatsApp é muito semelhante à comunicação oral; Consequentemente, as pessoas tendem a não colocar muito esforço na forma como elas escrevem. Problemas básicos surgem devido a uma falta de pontuação correta. Por exemplo, muitas pessoas não usam uma vírgula para separar os nomes das pessoas que estão falando com o resto da frase; em outros casos, eles não usam vírgulas ou períodos e o destinatário da mensagem tem que ler o texto várias vezes para entendê-lo corretamente – e se eles não fizerem esse esforço, pode haver um problema real e prático na sua comunicação. No que diz respeito a ortografia, há menos problemas do que o que costumava acontecer com SMS, porque agora não há limite para o número de caracteres que podemos usar, e agora temos autocorreção. No entanto, alguém que não sabe soletrar ainda comete erros no WhatsApp, no papel, ou na página de alguém no Facebook.

Algum tipo de guia ou manual de maneiras ao usar o WhatsApp será criado, explicando a maneira correta de usá-lo na escola, no trabalho, em diferentes momentos do dia…?

Eu não sei se isso vai acontecer, embora eu seja a favor de todos nós colocarmos alguns limites em certas coisas, como fazemos em outras áreas da vida (como comer compulsivamente, como já mencionado). Muitos problemas surgem na comunicação. Famílias que almoçam na frente da televisão, por exemplo; isso também é um problema. Se a sua família quer se comunicar uns com os outros, falar sobre o que aconteceu durante o dia, ou naquela manhã… simplesmente não ligue a televisão. No que diz respeito às diretrizes, talvez devêssemos pensar em termos gerais sobre como podemos ser mais educados com os outros: prestar atenção quando estamos juntos, arrumar tempo para ajudá-los, não se fechar dos outros em nosso próprio pequeno mundo… Normas de boas maneiras nos dão muitos princípios que devemos aplicar todos os dias, em vários momentos e em muitas áreas da vida. A violência doméstica, por exemplo. Uma pessoa bem-educada sabe que devemos respeitar os outros: especialmente, aqueles que amamos. Consequentemente, não podemos atingi-los fisicamente, nem prejudicá-los psicologicamente. Se todos praticarmos melhores maneiras em todas as áreas da vida, faremos o mesmo com relação ao uso de nossos celulares.

Portanto, até que ponto a maneira como eu uso meu telefone constitui grosseria para com os outros, incomodando-os em um momento ou outro? Essa é a pergunta que devemos fazer a todos nós mesmos para começar a estabelecer um padrão para as maneiras, como devemos fazer em todas as áreas da vida.

http://blog.comshalom.org/carmadelio/52682-como-o-whatsapp-esta-nos-tornando-grosseiros

 

Jesus Cristo realmente existiu? O que dizem as fontes não-religiosas?

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Carlos Martins Nabeto

Algumas pessoas afirmam que Jesus Cristo nunca existiu. Alegam que a vida de Jesus e os evangelhos são mitos criados pela Igreja. Essa lamentável afirmação se baseia, principalmente, na crença de que não existem registros históricos de Jesus.

Tal carência de registros seculares (isto é, não ligados à esfera religiosa) não deve surpreender os cristãos de hoje. Primeiro, porque apenas uma pequena fração dos registros escritos sobreviveram ao tempo (nada, nada, são 20 séculos!). Segundo, porque existiam poucos – se é que de fato realmente existiam – “jornalistas” na Palestina do tempo de Jesus. Terceiro, porque os romanos viam o povo judeu como apenas mais um dos grupos étnicas que precisavam tolerar; os romanos tinham pouquíssima consideração para com o povo judeu. Finalmente, porque os líderes judeus também ansiavam esquecer Jesus. Assim, os escritores seculares somente começaram a se referir sobre o Cristianismo quando este movimento religioso tornou-se popular e começou a incomodar o estilo de vida que tinham.

Ainda que os testemunhos seculares sobre Jesus sejam raros, existem alguns poucos que sobreviveram ao tempo e faz referências a Ele. Não é de se surpreender que os registros não cristãos mais antigos tenham sido feitos por judeus. Flávio Josefo, que viveu até 98 dC, era um historiador judeu romanizado. Ele escreveu livros sobre a História dos Judeus para o povo romano. Em seu livro, “Antiguidades Judaicas”, ele faz algumas referências a Jesus. Em uma delas, ele escreve:

Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, que praticou boas obras e cujas virtudes eram reconhecidas. Muitos judeis e pessoas de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e morto. Porém, aqueles que se tornaram seus discípulos pregaram sua doutrina. Eles afirmam que Jesus apareceu a eles três dias após a sua crucificação e que está vivo. Talvez ele fosse o Messias previsto pelos maravilhosos prognósticos dos profetas” (Josefo, “Antiguidades Judaicas” XVIII,3,2).

Muito embora diversas formas deste texto em particular tenham sobrevivido nestes vinte séculos, todas elas concordam com a versão citada acima. Tal versão é considerada a mais próxima do original – reduzindo as suspeitas de adulteração do texto por mãos cristãs. Em outros lugares de sua obra, Josefo também registra a execução de São João Batista (XVIII,5,2) e o martírio de São Tiago o Justo (XX,9,1), referindo-se a este como “o irmão de Jesus que era chamado Cristo”. Deve-se notar que o emprego do verbo “ser” no passado, na expressão “Jesus que ERA chamado Cristo” testemunha contra uma possível adulteração cristã já que um cristão certamente escreveria “Jesus que É chamado Cristo”.

Uma outra fonte judaica, o Talmude, faz algumas referência históricas a Jesus. De acordo com o Dicionário da American Heritage, o Talmude é “a coleção de antigos escritos rabínicos que consiste da Mishná e da Gemara, e que constitui a base da autoridade religiosa para o Judaísmo tradicional”. Ainda que não faça referência explícita ao nome de Jesus, os rabinos identificam a pessoa em questão com Jesus. Essas referências a Jesus não são simpáticas nem a Ele nem à sua Igreja. Esses escritos também foram preservados através dos séculos pelos judeus, de maneira que os cristão não podem ser acusados de terem adulterado o texto.

O Talmude registra os milagres de Jesus; não é feita nenhuma tentativa de negá-los, mas relaciona-os como frutos de artes mágicas do Egito. Também sua crucificação é datada como tendo “ocorrido na véspera da Festa da Páscoa”, em concordância com os evangelhos (Lc 22,1ss; Jo 19,31ss). Também de forma semelhante ao evangelho (Mt 27,51), o Talmude registra a ocorrência do terremoto e o véu do templo que se dividiu em dois durante a morte de Jesus. Josefo, em sua obra “A Guerra Judaica” também confirma esses eventos.

No início do séc. II, os romanos começaram a escrever sobre os cristãos e Jesus. Plínio o Moço, procônsul na Ásia Menor, em 111 dC escreveu em uma carta dirigida ao imperador Trajano:

…[os cristãos] têm como hábito reunir-se em uma dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição…” (Plínio, Epístola 97).

Uma atenção especial deve ser dada à frase “a Cristo como se este fosse um deus”; trata-se de um testemunho secular primitivo atestando a crença na divindade de Cristo (Jo 20,28; Fil 2,6). Também é interessante comparar esta passagem com At 20,7-11, que é uma narração bíblica sobre a primitiva celebração cristã do domingo.

Um outro historiador romano, Tácito, respeitado pelos modernos pesquisadores por causa de sua precisão histórica, escreveu em 115 dC sobre Cristo e sua Igreja:

“O fundador da seita foi Crestus, executado no tempo de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos. Essa superstição perniciosa, controlada por certo tempo, brotou novamente, não apenas em toda a Judéia… mas também em toda a cidade de Roma…” (Tácito, “Anais” XV,44).

Mesmo desprezando a fé cristã, Tácito tratou a execução de Cristo como fato histórico, fazendo relação com eventos e líderes romanos (cf. Lc 3,1ss).

Outros testemunhos seculares ao Jesus histórico incluem Suetônio em sua “Biografia de Cláudio”, Phlegan (que registrou o eclipse do sol durante a morte de Jesus) e até mesmo Celso, um filósofo pagão. Precisamos manter em mente que a maioria dessas fontes não eram apenas seculares mas também anti-cristãs. Esses autores seculares, inclusive os escritores judeus, não desejavam ou intencionavam promover o Cristianismo. Eles não tinham motivação alguma para distorcer seus registros em favor do Cristianismo. Plínio realmente punia os cristãos pela sua fé. Se Jesus fosse um simples mito ou sua execução uma mentira, Tácito teria relatado tal fato; certamente, ele não teria ligado a execução de Jesus com líderes romanos. Esses escritos, portanto, apresentam Jesus como um personagem real e histórico. Negar a confiabilidade dessas fontes que citam Jesus seria negar todo o resto da história antiga.

Não é intenção deste artigo provar que esses antigos escritos seculares testemunham que Jesus seja o Filho de Deus ou o Cristo. Porém, esses registros mostram que um homem virtuoso chamado Jesus viveu nesta Terra no início do séc. I dC e fundou um movimento religioso que perdura até os nossos dias. Esse Homem foi chamado de Cristo – o Messias. Os cristãos do primeiro século também O consideravam como Deus. Por fim, esses escritos suportam outros fatos encontrados na Bíblia a respeito da vida de Jesus. Logo, afirmar que Jesus nunca existiu e que sua vida é um mero mito compromete a confiabilidade de toda a história antiga.

http://blog.comshalom.org/carmadelio/52619-jesus-cristo-realmente-existiu-que-nos-diz-as-fontes-historicas-nao-religiosas

Distinguindo entre professores, educadores e intelectuais orgânicos

ALEXANDRE MAGNO FERNANDES MOREIRA

Na doutrina pedagógica brasileira, há praticamente um consenso no sentido de que os professores não apenas são intelectuais, mas principalmente têm o dever moral de serem intelectuais orgânicos.


Educador
é simplesmente aquela pessoa responsável pela educação de outrem. Sua relevantíssima função social consiste na transmissão seletiva da cultura às novas gerações. Nesse sentido, o educador determina quais manifestações culturais são relevantes o bastante para serem internalizadas pelos educandos. Não é exagero dizer que o conjunto de possibilidades de vida imagináveis por determinada geração foi determinado majoritariamente pelos educadores dessa geração.

Professor ou docente é a pessoa responsável pela educação, ou mais, estritamente, pela transmissão de conhecimentos a outras pessoas. A atividade do professor é o ensino, que pode ser realizado tanto em caráter informal (na educação domiciliar, por exemplo, o ensino é responsabilidade dos pais) quantoprofissionalmente, dentro de um ambiente escolar como integrante de uma profissão. Existem duas espécies fundamentais de professores:

  1. a) Os professores instrutores: são responsáveis apenas pela transmissão de conhecimentos. Não têm o poder de determinar o que, porque e para que transmitir, mas somente prestam um serviço tendo em vista os fins já determinados por outrem. Geralmente, consideram-se instrutores ou facilitadores aqueles que atuam na educação não formal (por exemplo, em cursos de línguas estrangeiras, de artes marciais e de mecânica);
  2. b) Os professores educadores: são simultaneamente educadores e instrutores, pois são responsáveis tanto por transmitir conhecimentos e habilidades como também por selecionar os bens culturais e as finalidades com que eles são transmitidos. O professor educador transmite ao educando a cultura filtrada de acordo com sua ideologia e visão de mundo. Indiscutivelmente, essa função pode ser exercida pelos pais ou responsáveis pelo menor. Mais controvertida é a possibilidade dessa função ser exercida pelos profissionais dos sistema escolar; de acordo com Armindo Moreira, há uma impossibilidade prática do exercício dessa função dentro do ambiente escolar:

Educar é criar hábitos e sentimentos que permitam ao educando adaptar-se ao meio social em que há de viver, para nele ser feliz sem impedir a felicidade dos outros.

Acontece que o professor não sabe e nem adivinha em que meio social vai viver seu aluno; daí que não vai prever os hábitos e sentimentos de que vai precisar o educando. E essa é a primeira razão pela qual o professor não pode educar.

Educar pelo exemplo não é processo que esteja ao alcance do professor. Um aluno, até seus 15 anos, terá tido, no mínimo, 20 professores. (…) Será que um ser humano pode ser educado por uma turma tão contrastante e contraditória em hábitos e convicções? É evidente que não! (…) Se os professores quiserem influir na formação moral e cívica de seus alunos, terão de o fazer com suas virtudes e com seus defeitos – e na consciência do educando ficará um feixe de contradições, um caos. E aqui está mais um motivo para que o professor não seja educador dos filhos alheios.

(…) só educa eficazmente quem ama o educando. (…) Exigir que o professor seja educador é exigir que ele ame o aluno. Ora, amor não é um sentimento que se exija para exercer uma profissão; menos ainda, em troca de um salário… E eis mais uma razão para não exigir que professor seja educador. [1]

O quadro a seguir sintetiza as categorias de professores:

  Atividade formal Atividade informal
Instrutores Professores inseridos no sistema escolar. Instrutores de cursos livres.
Educadores Professores e outros profissionais do sistema escolar. Pais e responsáveis por crianças e adolescentes.


Intelectual
, em sentido lato, é todo aquele que, dotado de cultura consideravelmente maior que a média da população, reflete sobre as realidades sociais e propõe soluções para os problemas dessa sociedade. A classe dos intelectuais é tradicionalmente denominada de intelligentsia. Na conhecida classificação das espécies de poder realizada por Max Weber, o poder intelectual (ao lado do militar e do político) tem destacada importância, uma vez que determina a ação alheia sem a necessidade da utilização da força física ou de meios financeiros.

Extremamente influente no Brasil é a distinção realizada por Antonio Gramsci entre intelectuais tradicionais eintelectuais orgânicos:

Daqui, a designação de intelectuais “orgânicos” distintos dos intelectuais tradicionais. Estes, para Gramsci, eram basicamente os intelectuais ainda presos a uma formação socioeconômica superada. Eram os intelectuais estagnados no mundo agrário do Sul da Itália. Eram o “clero”, “os funcionários”, “a casa militar”, “os acadêmicos” voltados a manter os camponeses atrelados a um status quo que não fazia mais sentido. (…)

(…)

“Orgânicos”, ao contrário, são os intelectuais que fazem parte de um organismo vivo e em expansão. Por isso, estão ao mesmo tempo conectados ao mundo do trabalho, às organizações políticas e culturais mais avançadas que o seu grupo social desenvolve para dirigir a sociedade. Ao fazer parte ativa dessa trama, os intelectuais “orgânicos” se interligam a um projeto global de sociedade e a um tipo de Estado capaz de operar a “conformação das massas no nível de produção” material e cultural exigido pela classe no poder. Então, são orgânicos os intelectuais que, além de especialistas na sua profissão, que os vincula profundamente ao modo de produção do seu tempo, elaboram uma concepção ético-política que os habilita a exercer funções culturais, educativas e organizativas para assegurar a hegemonia social e o domínio estatal da classe que representam. [2]

De acordo com essa classificação, os professores, responsáveis pela educação, seriam necessariamente intelectuais tradicionais ou orgânicos. Na doutrina pedagógica brasileira, há praticamente um consenso no sentido de que os professores não apenas são intelectuais, mas principalmente têm o dever moral de serem intelectuais orgânicos, ou em outros termos, intelectuais transformadores. [3] Maria Lúcia de Arruda Aranha, autora do mais influente manual de filosofia da educação no Brasil, afirma essa vinculação entre professor e intelectual orgânico de forma assaz contundente:

Ser um educador intelectual transformador é compreender que as escolas não são espaços neutros de mera instrução, mas carregados de pressupostos que representam as relações de poder vigentes e convicções pessoais nem sempre explicitadas. Imaginar que a escola seja um local apolítico, em que são transmitidos conhecimentos objetivos e apartados do mundo das injustiças sociais, é manter uma postura conservadora. Perigosamente conservadora, por contribuir com a manutenção do status quo. [4]

Notas:

[1] Professor não é educador. Cascavel: 2013, p. 10-11.

[2] SEMERARO, Giovanni. Intelectuais “orgânicos” em tempos de pós-modernidade. Cad. Cedes, Campinas, vol. 26, n. 70, p. 373-391, set./dez. 2006, p; 377-378.

[3] Cf. GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997, obra que deu origem ao termo.

[4] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação, p. 47. São Paulo: Moderna, 2006.